terça-feira, 22 de agosto de 2017

EDITORIAL – da decadência política-1988

José Paulo

EDITORIAL – populismo e 1988

O Estado militar 1964 foi um momento de decadência (corrupção) historial e relação ao Estado democrático (1946-1964). Chamá-lo de Estado populista (democracia populista) foi o ato de criar uma linguagem sedutora para destruir uma corrente política poderosa na política nacional: trabalhismo getulista.

A linguagem do populismo lançou uma confusão na nossa política. Ela permitiu que o Estado militar não fosse considerado como um momento de decadência ou corrupção da política nacional. Assim, economistas falam de um governo Geisel que não se encaixa na ideia de decadência ou corrupção da política nacional. Dilma Roussef tomou o governo Geisel como modelo de política econômica e sabe-se lá mais o quê! Lula e o PT não enxergam o Estado militar como um momento de decadência da nossa história política pós-II Guerra Mundial.

Todo o esforço moral e intelectual -que desaguou em uma política de destruição do Estado militar – para reverter a decadência da política militar tem no Legislador-1988 (Assembleia Nacional Constituinte) seu ponto de excelência. 1988 não significa um novo começo da política nacional como uma reviravolta em relação à corrupção da política militar?

Quando 1988 deu seus primeiros sinais de decadência? Golpe de Estado branco de FHC para se reeleger, mudando a natureza da Constituição como Ordem Política na qual não cabia o estatuto da reeleição. Criação da Okhrana em 1999, por FHC. Corrupção criminosa policial do 1°governo Lula no caso da Petrobrás. Corrupção criminosa policial de todo o sistema político no 2°governo Lula e nos dois governos Dilma Rousseff. Participação direta do PMDB no poder nacional como governo Temer.            

O país se encontra em um momento de decadência da política-1988. Se os políticos fazem leis corruptas na reforma política, tal fenômeno é um efeito da decadência da política-1988. Se o PMDB troca de nome para MDB isto não significa a volta do MDB original que foi uma parte importante do esforço intelectual e moral para a desmontagem do Estado militar negro 1968 (que veio depois do Estado militar liberal 1964).

Não há no horizonte fenômenos políticos que poderiam ser tomados como partes do esforço intelectual e moral para encerrar (na cultura política e na política tout court) o ciclo de decadência ou corrupção da política-1988. Não há nada que se assemelhe as correntes políticas antidecadência do momento 1964-1987 representadas na política por partidos políticos como PMDB e PT movido pela ética pública.


As eleições de 2018 estão mais para um episódio de coroamento da decadência-1988 do que para uma reviravolta que ponha um fim à decadência-1988?

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SADE - DA REVOLUÇÃO REPUBLICANA PERMANENTE

José Paulo


No a Filosofia da alcova, O Marquês de Sade se interroga, para além da libertinagem narrativa livresca, sobre um objeto, a revolução?

Se a revolução é Ding (uma coisa no sentido da língua alemã [Heidegger: 16] que é debate jurídico ou debate em geral, ainda mais duelo, combate, coisa como luta em outras línguas), Ding pode ser a coisa-combate do espaço público procedural hegeliano: Ding e diálogo. Na revolução, o diálogo costuma ser excluído do agir revolucionário contra a ordem vigente ou ancien régime. A revolução é apenas Ding, a Coisa em questão.

A revolução permanente republicana de Sade é a lei do gozo para todos. Uma captura do Imperativo moral kantiano (para os distraídos) no sentido da ética sadiana de abrir todas as comportas do desejo humano? A ética sadiana tem das Ding (o objeto-em-luta) no lugar de um agir universal e infinito? Em Sade, das Ding é a lei universal do direito ao gozo para todos? O discurso de Sade faz do gozo de Ding uma subversão da Lei que limita o desejo de prazer em relação ao Ding?

 Não gozar com das Ding é a definição da Lei em geral. Gozar remete para a relação de prazer do bebê com a Mãe-objeto de desejo do bebê? Não transformar prazer em gozo é a lei universal da passagem da natureza para a cultura que constitui o homem! Pois, das Ding é a Mãe (Lacan. S.7: 90).  
Lacan diz:
“la mère reste interdite. Notre verdict est confirmé sur la soumission de Sade à la Loi. (Lacan. 1966: 790). É possível ir mais longe e dizer que a função do mal leva-o ao reconhecimento indireto da Lei na cultura: L’apologie du crime ne le pousse qu’à  l’aveu détourné de la Loi. L’Étre suprême est restauré  dans le Maléfice”. (Lacan. 1966: 790).

Submissão à Lei de Ding não significa submissão à lei jurídica! Ding é combate, luta, revolução republicana permanente em Sade. Trata-se da submissão à lei de Ding ou ˂tirer les choses au clair> ou que ˂Bonne chose a besoin de temps> revolucionários!         

Sade se submete à Lei moral de interdição do incesto que não é um dos 10 mandamentos nomeados da narrativa judaica. Este mandamento é a falta de um significante na cadeia dos significantes da moral judia-cristã, significante que articula, de modo latente e ausente, aos 10 mandamentos à passagem da natureza à cultura. A moral em tela já é um puro artefato cultural, fato da cultura moral que trabalha fazendo pendant com o natural recalque (fato comum recalcado na cultura) do gozo de Ding.

A revolução permanente republicana tem uma Lei: não gozar com o objeto revolução como objeto substituto da mãe-Ding. A revolução republicana não é o direito ao gozo integral e infinito! A ética da revolução republicana é abrir muitas comportas do desejo, mas não todas.

De qualquer modo o panfleto Franceses, mais um esforço para serem republicanos faz o pacato Lacan falar de política revolucionária francesa, europeia:
“Após esse apelo, suposto ser colhido por um movimento de folhetos que se agitam nesse momento na Paris revolucionária, o marquês de Sade nos propõe como máxima universal de nossa conduta, visto o que, nas premissas desse livro, consiste a ruína das autoridades, o advento de uma verdadeira república, o contrário do que pôde ser até então considerado como o mínimo vital de uma vida viável e coerente.
E, na verdade, ele não sustenta nada mal isso. Não é absolutamente por acaso que encontramos inicialmente na Filosofia na alcova um elogio da calúnia. A calúnia, diz-nos ele, não poderia, em nenhum caso ser nociva – se ela imputa o nosso próximo algo muito pior do que se pode com razão atribuir-lhe, ela tem por mérito alertar-nos contra suas empreitadas. E prossegue deste modo, justificando ponto por ponto o derrubamento dos imperativos fundamentais da lei moral, e preconizando o incesto, o adultério, o roubo e tudo o que vocês podem acrescentar. Peguem o contrário de todas a leis do Decálogo e terão a exposição coerente de algo cujo móvel final articula-se em suma assim – Tomemos como máxima universal de nossa ação o direito de gozar de outrem, quem quer que seja, como instrumento de nosso prazer! ”. (Lacan. S. 7: 100). Claro que Lacan já disse que excetuando a mãe!

Com efeito, a revolução republicana permanente trata do gozo entre homens revolucionários libertinos e belas mulheres:
“Sade demonstra, com muita coerência, que uma vez universalizada essa lei, se ela confere aos libertinos a livre disposição de todas as mulheres indistintamente, consentido elas ou não, libera-as inversamente de todos os deveres que uma sociedade civilizada lhes impõe em suas relações conjugais, matrimoniais e outras. Essa concepção abre as comportas que ele propõe imaginariamente no horizonte do desejo, cada um sendo solicitado a levar a seu extremo as exigências de sua cobiça e de realizá-las”. (Lacan. S. 7: 100-101).

Contra a revolução republicana permanente sadiana imaginária ou real, as feministas se levantam como um só homem. Toda a articulação de uma sociedade de polícia e seu aparelho de Estado feminista se ergue contra o libertino, consciente ou inconsciente, que considera que pode dispor das mulheres sem o consentimento delas. Trata-se da transdialética gramatical sadiana às avessas que põe de um lado a forma homem animal despótico vocal e de outro o conjunto mulheres.               

Uma comporta a ser aberta na gramática transdialética em tela é a da apologia da CALÚNIA.  Transdialética entre a cultura de massa moderna (vigilância da calúnia) e da cultura de massas sadiana na Internet: realização do desejo-liberdade de caluniar.  Tal desejo nos remete para o Jesus Cristo de Renan!

O crime de Jesus não foi a poderosa e divina eloquência satírica com a qual ele ataca a classe sacerdotal judaica ultrajando-a na zombaria e no ridículo, como frisa Lacan:
“Mais s’il vous faut um coeur bien accroché pour suivre Sade quando il prône la calomnie, premier article de la moralité à instituer dans sa republique, on préférerait qu’il mit le piquant d’un Renan. ˂Félicitons-nous, écrit ce dernier, que Jésus n’ait rencontré aucune loi qui punît l’outrage envers une classe de citoyens. Les Pharisiens eussent été inviolables> et il continue: ˂ Ses exquises moqueries, ses magiques provocations frappaient toujours ao coeur. Cette tunique de Nessus du ridicule que le Juif, fils des Pharisiens, traîne en lambeaux aprés lui depuis dix-huit siècles, c’est Jésus qui l’a tissée par un artífice divin. Chef-d’ouvre de haute raillerie, ses traits se sont inscrits en ligne de feu sur la chair de l’hypocrite et du faux dévot. Traits incomparables, traits dignes d’un Fils de Dieu! Un Dieu seul sait tuer de la sorte. Socrate et Molière ne font qu’efflereur la peau. Celui-ci porte juaqu’au fond des os le feu et la rage>”. (Lacan. 1966: 788).     

A eloquência dialética de Jesus era feita de calúnias que jogava na lata de lixo teológica a própria narrativa judaica como um todo:
“ Coitados de vós, escribas e fariseus hipócritas. Pois vós limpais o exterior da taça e do prato, mas o interior, que está cheio de rapina e cupidez, vós nem reparais. Fariseu cego, primeiro lava o interior, para depois pensar na limpeza do exterior.
Coitados de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pois vós pareceis sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas que, por dentro, estão cheios de ossos de mortos e de toda espécie de podridão. Aparentemente, vós sois os justos; mas no fundo, estais cheios de fingimento e pecado.
Coitados de vós, escribas e fariseus hipócritas, que ergueis os túmulos dos profetas, e enfeitais os monumentos dos justos, e que dizeis: ‘ Se nós tivéssemos vivido no tempo de nossos pais não teríamos sido cúmplices nas mortes dos profetas’. Ah! Vós pretendeis ser filhos dos que mataram os profetas. Pois bem, acabai de acumular a medida de vossos pais. A sabedoria de Deus bem teve razão em dizer: ‘Eu vos enviarei profetas, sábios, doutos; vós matareis uns, perseguireis outros de cidade em cidade, para que um dia caia sobre vós todo o sangue inocente que foi espalhado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar. Eu vos digo: é nesta presente geração que todo esse sangue será cobrado”. (Renan: 328-329)       

O crime que condena Jesus é o artigo jurídico sedução:
“O procedimento adotado pelos sacerdotes contra Jesus estava de acordo com o direito estabelecido. O processo contra o ‘sedutor’ (mesith), que busca atentar contra a pureza da religião, é explicado no Talmude com detalhes cuja ingênua impudência faz rir. A cilada judiciária ali é tomada como parte essencial da instrução criminal. Quando um homem é acusado de ‘sedução’, instalam-se duas testemunhas por detrás de uma parede; arruma-se um jeito de atrair o acusado para um quarto contíguo, onde possa ser ouvido pelas testemunhas, sem que as percebas. Acendem-se dois candeeiros perto dele, para que fique bem constatado que as testemunhas ‘o veem”. Em seguida, faz-se o acusado repetir sua blasfêmia. Ele é levado a se retratar. Se ele persistir, as testemunhas que o ouviram levam-no ao tribunal e ele é apedrejado. O Talmude acrescenta que foi dessa forma que procederam com Jesus, que ele foi condenado sobre o depoimento de duas testemunhas, e que o crime de ‘sedução’ é, em suma, o único para o qual se preparam testemunhas dessa forma”. (Renan: 358-359).    

Trata-se da política do partido sacerdotal que usa uma artimanha jurídica teológica menor, quase pessoal, para condenar e crucificar. Renan diz que essa é a política de todos os tempos ocidentais para tratar com os revolucionários espiritualistas ou materialistas:
“Certamente, as causas que deveriam levar Jerusalém à ruína, 37 anos mais tarde, estavam fora do cristianismo nascente. Contudo, não se pode dizer que o motivo alegado nessa circunstância pelos sacerdotes estivesse completamente fora de propósito para que se veja nele má-fé. Num sentido geral, Jesus, se triunfasse, realmente levaria a nação judaica à ruína. Partindo de princípios admitidos de improviso por toda a antiga política, Hanan e Caifás tinham então, o direito de dizer: ‘Mais vale a morte de um homem que a ruína de um povo’. Esse é um raciocínio, para nós, detestável. Mas este raciocínio foi o dos partidos conservadores desde a origem das sociedades humanas. O ‘partido da ordem’ (tomo essa expressão no sentido estrito e mesquinho) foi sempre o mesmo. Pensando que a última palavra do governo é impedir as comoções populares, ele crê praticar um ato de patriotismo ao prevenir com um homicídio jurídico a efusão tumultuosa do sangue. Pouco preocupado com o futuro, ele não imagina que, ao declarar guerra a qualquer iniciativa, ele corre o risco de frustrar uma ideia destinada a um promissor triunfo. A morte de Jesus foi uma das mil aplicações dessa política. O movimento que ele dirigia era apenas espiritual; mas era um movimento, desde então os homens da ordem, persuadidos de que o essencial para a humanidade era não se agitar, deviam impedir a expansão do novo espírito. Jamais se viu, por meio de um exemplo mais chocante, como tal conduta vai contra seu objetivo. Se deixado livre, Jesus ter-se-ia esgotado numa luta desesperada contra impossível. O ódio ininteligível de seus inimigos decidiu o sucesso de sua obra e selou sua divindade”. (Renan: 338-339).

Hoje, nos encontramos longe do direito sacerdotal judaico arcaico? Certamente, o presidente Temer nada tem de comum com Jesus. Mas não foi preparada uma cilada farisaica e hipócrita para ele na situação de ‘sedução’ da empresa Fri boi que pode ser uma semblância ou algo real? Qual a distância do nosso direito do direito judaico arcaico, direito do Urstaat judaico? Qual a distância da política brasileira em relação à política do ‘partido da ordem’ (Renan) desde os tempos arcaicos?

A política do partido da ordem não faz pendant com a revolução permanente republicana do Marquês de Sade? Tal evolução não avança sobre os corpos das mulheres através de libertinos arcaicos republicanos?    

                                                                     REVOLUÇÃO REPUBLICANA PERMANENTE

Sade começa o panfleto Français, encore un effort si vous voulez être républicains com uma fantasia do futuro (Marx):
“Je viens offrir de grandes idées: on les écoutera , elles seron réfléchies; si toutes ne plaisent pas, au moins en restera-t-il quelques-unes; j’aurai contribué em quelque chose au progrès des lumières, et j’en serai contente”. (Sade: 187).

A liberdade é o significante-mestre da revolução permanente do republicanismo. A liberdade liga o republicanismo ao Esclarecimento. Sade expõe um conjunto de ideias, mas sua revolução republicana estará em curso permanente se algumas dessas ideais se tornarem a prática política no real da sociedade moderna ou pior no século XXI...

A primeira ideia do republicanismo é aniquilar o cristianismo na cultura Europeia, pois, a revolução é europeia: Si, malheureusement pour lui, le Français s’ensevelissait encore dans les ténèbres du christianisme, d’um côte l’orgueil, la tyrannie, le despotisme des pêtres, vice toujours renaissants dans cette horde impure, de l’autre la bassesse, les petis vues, les platitudes des dogmes et des mystères de cette indigne et fabuleuse religion, en émoussant la fierté de l’âme republicaine, l’auraint bientôt ramenée sous le joug que son énergie vient de briser”. (Sade: 188)

A religião faz pendant com a tirania civil em todas as épocas:
Ne perdons pas de vue que cette puérile religion était une des meilleures armes aux mains de nos tyrans: un de ses premier dogmes était de rendre à César ce qui appartient à César; mais nous avons détrôné César et nous ne voulons plus rien lui rendre”. (Sade: 188).  

A religião invade o real da sociedade política dos significantes (Lacan. S. 18: 18); ela não é uma ideologia política simples qualquer constituída por juízos de opinião para a vida do senso comum do homem; mas sim uma ideologia sem objeto que, no entanto, subjetivam os significantes reais, peixes que voam na superfície do oceano da tradição (camponeses); ela é um sucedâneo de ideologia gramatical. O republicanismo deve ser também uma ideologia gramatical para as massas:
“; les paysans n’ont-ils pas senti la nécessité de l’anéantissiment du culte catholique, si contraditoire aux vrais príncipes de la liberte? N’ont-ils pas vu sans effroi, comme sans douleur, culbuter leus autels et leurs presbytères? Ah! Croyez qu’ils renonceront de même à leur ridicule dieu. Les statues de Mars, de Minerve et de la Liberté seront mises aux endroits le plus remarquables de leurs habitaions; une fête annuelle s’y célébrera tout ans; la couronne civique y sera  décernée au citoyen qui aura le mieux mérité de la patrie”. (Sade: 196).

O republicanismo deve ser uma correlato pagão de cristianismo?

A felicidade é o sujeito gramatical do republicanismo revolucionário permanente:
“faites-leur sentir que ce bonheur consiste à rendre les autres aussi fortunés que noud désirons l’être nous-mêmes”. (Sade: 199).

A felicidade faz pendant com a felicidade de Freud?

A felicidade faz pendant com a moral kantiana-sadiana:
“Disons que le nerf du factum est donné dans la maxime à proposer sa règle à la jouissance, insolite à s’y faire droit à la mode de Kant, de se poser comme règle universelle. Énonçons la maxime: ˂ J’ai le droit de jouir de ton corps, peut me dire quiconque, et ce droit, je l’exercerai, sans qu’aucune limite m’arrête dans la caprice des exactions que j’aie le goût d’y assouvir > ”. (Lacan. 1966: 768-769).

Freud diz: “O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades representadas em alto grau, sendo por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica”. (Freud. XXI: 95).

Uma comunidade intelectual atravessa épocas e faz a ligação neurônica-significante ente Sade-Kant-Freud?

A arte é insuficiente para a obtenção da felicidade. A sublimação da realização da satisfação dos desejos necessita fazer pendant com a sociedade narcose para evitar o progresso e a expansão do republicanismo revolucionário permanente? Freud diz:
“As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação da vida. Não obstante, a suave narcose a que arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real”. (Freud. XXI: 100).

A aflição real é aquela que se constitue como motor moral do republicanismo revolucionário. Temos aí a substituição da ideologia gramatical pela moral de gramaticalização das aflições reais.

Das Ding é o objeto supremo da aflição moral real. A religião (Deus) pode dar conta desse objeto? Para Sade, a religião é uma ideologia sem objeto, uma ideologia da representação onde o objeto escapa de ser representado, a não ser como ficção:
Toutes nos idées sont des représentations des objets qui nous frappent; qu’est-ce qui peut nous représenter l’idée de Dieu, qui est évidemment une idée sans objet”. (Sade: 200). Trata-se de um fantasma (Sade: 195).

O fantasma é o sujeito gramatical, por excelência, da ideologia:
Gespenst Nr. 1 (Fantôme n° 1: l’être suprême (dans höchste Wesen), Dieu. On ne perd pas une minute à parler de cette ˂ incroyable croyance >, note Marx. Ni Stirner ni Marx ne s’arrêtent d’ailleurs sur l’essence du croire, ici de la foi par excellence, qui ne peut jamais croire qu’à l’incroyable, et ne serait pas ce qu’elle est sans cela, au-delà de toute ˂preuve de l’existence de Dieu > ”. (Derrida. 1993: 227).

Em Marx, a ideologia econômica põe a mercadoria no lugar de Deus. Trata-se de uma ideologia materialista sem objeto:
“O esquema fantasmal parece, desde então, indispensável. A mercadoria é uma ‘coisa’ sem fenômeno, uma coisa em fuga que passa os sentidos (ela é invisível, intangível, inaudível e sem odor); mas essa transcendência não é toda espiritual, ela conserva esse corpo sem corpo de que havíamos reconhecido que ele fazia a diferença do espectro para o espírito. O que passa os sentidos passa ainda diante de nós, na silhueta do corpo sensível que, no entanto, lhe falta ou nos permanece inacessível. Marx não diz sensível e insensível, sensível mas insensível, diz: sensível insensível, sensivelmente supra-sensível. A transcendência, o movimento em supra, o passo além (über, epekeina) se faz sensível no excesso mesmo. Torna o insensível sensível (...) A mercadoria obsidia assim a coisa, seu espectro trabalha o valor de uso”. (Derrida. 1994:  202).

A transdialética da ideologia materialista gramaticaliza o mundo do valor de uso no real como coisa-fantasmal. Passagem do idealismo do mundo para o materialismo da coisa sem fenômeno. Trata-se da moral capitalista capaz de pôr um freio no republicanismo revolucionário? Marx viu na moral socialista exposta no Crítica ao Programa de Gotha um meio de desviar o republicanismo revolucionário? O fracasso tanto do socialismo da URSS como do capitalismo americano permitiu à moral do republicanismo sadiano retomar seu desenvolvimento e expansão na física gramatical?  
                                                             SADE, MEU PRÓXIMO MORAL

A moral sadiana dos costumes é um passo além da ideologia gramatical materialista de Marx. Passemos a ela.

Deus é o objeto fictício ou oco de uma ideologia religiosa; Deus é esse ridículo fantasma da imaginação das massas. Em Ding (duelo com Deus) não se deve usar a cólera, e sim a brincadeira gozosa:
“Français, plus de dieux, si vous voulez pas que leur funeste empire vous replonge bientôt dans tout les horreurs du depotisme; mais ce n’est qu’en vous en moquant que vous les détruirez; tout les dangers qu’ils traînent à leurs suíte renaîtront aussitôt en foule si vous y mettez del’humeur ou de l’importance. Ne revenserz point leurs idoles en colère: pulvérisez-les em jouant, et l’opinion tombera d’elle-même”. (Sade: 206).

Espanto liberal! A lei do Estado revolucionário republicano não dobra aquele que não se submete à lei:
Or, quel sera le comble de votre injustice si vous frappez de la loi celui auquel il est impossible de se plier à la loi!”. (Sade: 208).

Aquele que não se dobra à lei é o revolucionário do republicanismo. Curioso que Jesus poderia ser considerado um revolucionário do republicanismo se sua revolução fosse materialista. Hegel diz sobre o indivíduo revolucionário de todos os tempos ocidentais:
“uma modificação pela qual o indivíduo, como efetividade especial e como conteúdo peculiar, se opõe àquela efetividade universal. Essa oposição vem a tornar-se crime quando o indivíduo suprassume essa efetividade de uma maneira apenas singular; ou vem a tornar-se um outro mundo – outro direito, outra lei e outros costumes, produzidos em lugar dos presentes – quando o indivíduo o faz de maneira universal e, portanto, para todos”. (Hegel. 1992: 194).        

Freud trata como gramática moral ilógica o credo quia absurdum, do primeiro padre da Igreja atribuído a Tertuliano, que sustenta que as ideologias religiosas estão fora da jurisdição da razão (Freud. XXI: 40-41). Quanto ao amar o próximo como a ti mesmo, eis o credo cria absurdum fazendo pendant com Sade:
“Acho que agora posso ouvir uma voz solene me repreendendo: ‘É precisamente porque teu próximo não é digno de amor, mas, pelo contrário, é teu inimigo, que deves amá-lo como a ti mesmo’. Compreendo então que se trata de um caso semelhante ao do Credo quis absurdum”. (Freud. v. XXI: 132).

Sade desmonta o Credo quia absurdum com uma grande simplicidade argumentativa:
Il ne s’agit pas d’aimer ses semblables commme soi-même, puisque cela est contre toutes les lois de la nature, et que son seul organe doit diriger tout les actions de notre vie; il n’est question que d’aimer nos semblables comme des freres, comme des amis que la nature nous donne, et avec lesquels nous devons vivre d’autant mieux dans un État republicain que la disparition des distances doit nécessairaiment resserrer les liens”. (Sade: 207). 

Não tem descanso! Sobre o conceito delito criminoso: “Le législateur, dont toutes les idées doivent être grandes comme l’ouvrage auquel il s’applique, ne doit jamais étudier l’effet du délit qui ne frappé qu’individuellement; c’est son effet en masse qu’il doit examiner”. (Sade: 212).

A burocracia republicana revolucionária é a Bürokratie de Marx no lugar do significante burguês liberal administração de Hegel. (Marx. 1982: 357). No Brasil, uma Bürokratie revolucionária republicana se põe e repõe como freio à revolução da moral republicana dos costumes:
Quoi qu’il en soit enfin, les forfaits que nous pouvons commettre envers nos frères se réduisent à quatre principaux: la colomnie, le vol, les délits qui, causés par l’impureté, peuvent atteindre désagréablement les autres, e le meurtre. Toutes ces actions, considérées como capitales dans un gouvernements monarchique, sont-elles aussi graves dans un État républicain? (Sade: 210)      

Encerro! E convido o leitor a continuar a gramaticalização do inconsciente do discurso do político do marquês de Sade! 

DERRIDA, Jacques. Spectres de Marx. Paris: Galilée, 1993
DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. RJ: Relume-Dumará, 1994
FREUD. Obras Completas. v. XXI. RJ: Imago, 1974
HEGEL. Fenomenologia do Espírito. Parte I. Petrópolis: VOZES, 1992
HEIDEGGER. Qu’est-ce qu’une chose? Paris: Gallimard, 1962
LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1996
-------------------- O Seminário. Livro 7. A ética da psicanálise. RJ: Jorge Zahar Editor, 1991
------------------- O Seminário. Livro 18. De um discurso que não fosse semblante. RJ: Zahar, 2009
MARX e Engels, Carlos e Federico. v. 1. Marx. Escritos de Juventud. México: Fondo de Cultura Económica, 1982
RENAN, Ernest. Vida de Jesus. SP: Martin Claret, Sem Data
SADE. Marquês. La philosophie dans le boudoir. Paris: Gallimard, 1976
   
         
          
              
  
                                                              

  


               
   
   

         

domingo, 13 de agosto de 2017

NOTA - DO SIGNIFICANTE GRAMATICAL

José Paulo

Da gramática em narrativa estilística da política


No Seminário 7, o inconsciente é freudiano: articulado pelos processos de deslocamento e condensação. Lacan explora e estilística com as figuras de linguagem metáfora e metonímia jogando o inconsciente para o plano da linguagem. Para Lacan, a estilística possuiu uma autonomia em relação à gramática. O significante se apresenta ao sujeito como significante-estilístico (S. 7: 85):
“Desde então, no nível do inconsciente, isso se organiza segundo as leis que não são forçosamente, Freud o diz muito justamente, as leis da contradição nem as da gramática, mas as leis da condensação e do deslocamento, as que chamo, para vocês, de as leis da metáfora e da metonímia”; (Lacan. S. 7: 80).

O significante lacaniano é o significante estilístico e a estilística possui uma autonomia absoluta em relação à gramática. Se folhearmos a gramática de um brasileiro veremos que ele pensa com o outro Lacan. 

Para Rocha Lima, a estilística é um complemento da gramática no funcionamento da linguagem:
“Enquanto a gramática estuda as formas linguísticas no seu papel de propiciarem o intercâmbio social da comunidade, cabe à estilística estudar a expressividade delas, isto é, a sua capacidade de transfundir emoção e sugestionar os nossos semelhantes.

Assim, a estilística vem complementar a gramática”. (Lima: 476).

A gramática e estilística estão articuladas com autonomia relativa uma em relação à outra.
A passagem para a definição do inconsciente como estruturado como uma linguagem não faz a junção do inconsciente retórico (Lacan. 1998: 914; 1966: 899) com o inconsciente gramatical? Trata-se da junção do gramatical com o estilístico no corpo do significante: significante gramatical-estilístico ou retórico.

No Lacan do livro Écrits, A retórica do significante é fálica: “O Nome-do-Pai metaforiza o significante, a ausência da mãe escrita a partir de seu desejo, e o efeito não é a significação, não de uma que envia à outra. O x encontra sua significação absoluta que é fálica. Que quer isso dizer? É o que se produz cada vez que há uma metáfora, e qualquer delas é do falo. É o que Lacan diz no famoso texto dos Écrits, “A significação do falo”. (Miller: 79-80).

Antes de chegar na relação do significante com das Ding, arremato a questão do conceito de significante como estruturado como uma linguagem (Dor: 178).

Lacan diz no Seminário 16: “No entanto, se podemos servir-nos de um discurso que se liberta da lógica, nem por isso, com certeza, ele é desligado da gramática”. (Lacan. S. 16: 268). Lacan está falando do discurso do inconsciente como gramatical em narração lógica, pois:
"Normalmente, um exercício dessa natureza só pode levar a uma profunda insuficiência lógica. Na realidade, isso é o que Freud quer dizer quando afirma que o inconsciente não conhece o princípio de contradição. O princípio de contradição é, na lógica, uma coisa excessivamente elaborada e da qual, mesmo na lógica, podemos prescindir, já que podemos construir toda uma lógica formal no campo do saber sem uso da negação”. (Lacan. S. 16: 268). Neste campo da lógica formal sem contradição articula-se o significante como gramatical em narrativa lógica.  

A fórmula L’inconscient est ce qui se lit (Lacan. S. 20: 29-31) fala de um discurso do significante gramatical-estilístico fazendo passagem para lalangue:
“O inconsciente, como se vê. É um termo metafórico para designar o saber que só se sustenta ao se apresentar como impossível, para que, a partir disso, confirme-se no real (entenda-se, discurso real) ”. (Lacan. 2003: 423). Lacan diz: “É nessa articulação com o real que se encontra a incidência política em que o psicanalista teria lugar, e fosse capaz de fazê-la”. (Lacan. 2003: 443).  

Primeiro, o significante é gramatical em narrativa lógica: “No que a gramática já mede a fraqueza das lógicas que dela se isolam, por clivá-las com seu subjuntivo, e se indica como concentrando o poder de para todas abrir caminho”. (Lacan. 2003: 449). O inconsciente é o que se lê como significante gramatical-estilístico em narrativa lógica no real: Lembro que é pela lógica que esse discurso toca no real, ao reencontrá-lo como impossível, donde é esse discurso que a eleva a sua potência extrema: ciência, disse eu, do real”. (Lacan. 2003: 449).

A relação entre inconsciente e real começa na transição da natureza para a cultura pela lei de interdição do incesto (Lacan. S. 7: 58-90). A lei do incesto interdita o acesso do desejo incestuoso do filho à Mãe no lugar de das Ding (Coisa lacaniana) necessário ao interdito da abolição do mundo inconsciente da demanda do enfant (Idem: 87). A demanda é essencial para articular a realidade e um poder de mover o mundo com o significante gramatical-oratório. Aí podemos chegar à realidade política:
“Mas, ao entrar o discurso político – atente-se para isso – no avatar, produziu-se o advento do real, a alunissagem, aliás sem que o filósofo que há em todos, por intermédio do jornal, se comovesse com isso, a não ser vagamente.
O que está em jogo é o que ajudará a extrair o real-da-estrutura: aquilo que da língua não constitui cifra, mas signo a decifrar”. (Laca. 2003: 535). O signo não é uma figura da gramática-oratória, como nos esclarece os especialistas no funcionamento do discurso político?  

O discurso político confirma-se como discurso real se tomarmos como suporte o significante semiótico?
“Dessa forma, seja no nível da percepção (audição, leitura, visão), seja no da emissão pelo sujeito que constrói seu enunciado, o significante se acha referencializado e aparece como um dado do mundo. Somente uma análise mais aprofundada do plano da expressão chega a mostrar que o significante é, também ele, resultado de uma construção de natureza semântica”. (Greimas: 421).

A gramaticalidade que lê o inconsciente no real pode recorrer ao desenvolvimento do campo teórico em narrativa gramatical da semiótica de Greimas fazendo pendant com o discurso político de Lacan:
“Em nosso projeto teórico, a gramática semiótica corresponde às estruturas sêmio-narrativas: tem como componentes, no nível profundo, uma sintaxe fundamental e uma semântica fundamental, e, correlativamente, no nível da superfície, uma sintaxe narrativa (chamada de superfície) e uma semântica narrativa”. (Greimas: 213).

O significante gramatical semiótico não é o significante do saber real da política, da ciência do real?      
       
DOR, Joël. Introduction à la lecture de Lacan. 1. L’inconscient struturé comme un langage. Paris: DONOËL, 1985
GREIMAS E COURTÉS, A. J. e J. Dicionário de Semiótica. SP: Cultrix, 1989
LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1966
--------------------  Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 1988
--------------------  O Seminário. Livro 7. A ética da psicanálise. RJ: Jorge Zahar Editor, 1991
--------------------------------------  Livro 16. De um Outro ao outro. RJ: Zahar, 2008
--------------------------------------  Livre XX. Encore. Paris: Seuil, 1975
Lacan, Jacques. Outros Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003
LIMA, Rocha. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. RJ: José Olympio. 1994
MILLER, Jacques-Alain. Lacan Elucidado. Palestras no Brasil. RJ: Jorge Zahar Editor, 1997

  

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PARTIDOCRACIA

José Paulo


PARTIDO, IGREJA, BUROCRACIA
                                                                                  I
Partidocracia é o domínio da política pelos partidos. OS EUA são um exemplo exuberante deste fenômeno. O Brasil se alinha com os EUA a partir da formação das grandes máquinas políticas do regime 1988. No início, algumas dessas máquinas possuíam uma vida interna democrática, especialmente o Partido dos Trabalhadores ou PT. Mas o PSDB também vivia alguma forma de democracia partidária. Estes dois partidos dividiram a era governamental nacional em duas. Na primeira, governou o PSDB e na segunda o PT até a queda de Dilma Rousseff.

O PSDB segui o modelo de Itamar Franco na instalação e aperfeiçoamento da partidocracia conhecida entre nós como presidencialismo de coalizão. Hoje, os políticos, seus jornalistas e cientistas políticos da USP e Unicamp falam em semipresidencialismo e outros nomes gelatinosos.

Eles parecem ignorar que Weber estabeleceu o significante do conceito que cobre e recobre o fenômeno (domínio dos partidos na política) da cultura política brasileira das últimas décadas. O presidencialismo de coalizão é nome fenomenológico vulgar da linguagem jornalística que substitui o nome real do fenômeno: partidocracia.

Weber fala da política como governo de seita e governo de Igreja na era moderna. O partido-seita tem uma visão particularista da política, paroquial, ele jamais lida com os grandes temas nacionais. Ao contrário, o partido-Igreja sempre está preparado para lidar com as grandes questões nacionais e enfrentar as crises (econômica, política, cultural) periódicas da política nacional, internacional e localmente.

Antes de se tornar uma grande burocracia partidária, o partido-nacional existiu na forma de correntes de opinião. No 18 Brumário de Luís Bonaparte, um texto de Marx, de fácil acesso para o leitor, os partidos eram despojados de burocracia. Eles se formavam a partir das correntes ideológicas gramaticais de opinião. Não foram eles os responsáveis pela crise catastrófica da democracia republicana de 1848. O responsável foi o presidente da República Luís Bonaparte que transformou o lúmpen-proletariado em um partido político sob comando de uma burocracia militarizada. Aí nasceu a lúmpen-burocracia como fenômeno-paradigmático da cultura política ocidental da modernidade do século XIX. Tal paradigma fez da burocracia um artefato político regulado pela corrupção. Como partido, a ideia de uma Igreja burocrática corrupta na modernidade se deve ao imperador Luís Bonaparte e seu partido lúmpen-proletário.

No último quartel do século XIX, se constituíram grandes partidos socialistas (socialdemocratas) na Europa no rastro da destruição da revolução popular da Comuna de Paris. Surge a grande burocracia partidária de esquerda que se tornará o paradigma do sistema partidário no Ocidente. Tal burocracia exige seus chefes e a formação da oligarquia partidária. Assim, o partido se transforma em uma organização burocrática capitalista (Michels, Weber). Mas o fenômeno oligárquico com chefe burocrático não significa uma estrutura partidária que tem como essência a corrupção como no caso da burocracia lúmpen-bonapartista. Uma certa ética da dignidade partidária (ética da Igreja nacional) parece orientar o partido burocrático capitalista. Na Europa, tal ética foi o vínculo imanente dos chefes (e da burocracia) com as massas, apesar (e contrária à lei de ferro) da lei de ferro da oligarquia.              

No século XXI, tal modelo em tela de sistema partidário encontra-se em crise catastrófica na Europa, ao menos na França, Itália e Espanha. Na França, o atual chefe de governo Macron se elegeu tendo com o suporte e a sintetização de correntes de opinião ideológicas gramaticais disparas. Macron está além da partidocracia em autodissolução espontânea na França. O nome do partido de Macron não é o nome de uma burocracia partidária e sim do movimento de correntes de opinião ideológicas em um processo permanente de sintetização transdialética gramatical. A cultura política da política francesa evolui pela sintetização com a cultura política do povo e ao fazer pendant com a alta cultura política econômica do campo de saberes europeu. É claro que Macron pode redundar em um estrondoso fracasso. Mas este não é o ponto aqui em questão.    

O ponto é que há uma racionalidade espontaneista na relação massas (eleitor) e partidocracia; e a eleição pode significar a autodissolução dos partidos e da partidocracia. A reforma política de Macron pode ser um signo do fim da partidocracia francesa? A partidocracia se transmuta de um objeto sólido em vapor, em fantasma burocrático do século XIX e XX. Ela é uma Igreja incapaz de conduzir os fiéis (o povo nacional) pelo deserto das crises política, econômica e cultural da atualidade da União Europeia do globalismo neoliberal.  

No regime 1988, o PMDB já se apresenta como a grande burocracia oligárquica do sertão. Burocracia voltada para se manter no poder local oligárquico (e no poder de uma rede significativa estadual, na Câmara de deputados e no Senado federal) e incapaz de vencer eleição presidencial. A ideologia gramatical do PMDB é o privatismo oligárquico colonial (privatização e expropriação da riqueza pública), a transação, os negócios políticos de ocasião. Trata-se de uma burocracia federal fragmentada, ao sabor do humor dos chefes locais e pronta para participar de governos totalitários de esquerda ou de direita.

O PMDB chegou ao poder nacional de Brasília com o suicídio político de Dilma Rousseff. Vice de Dilma, Michel Temer fez inúmeras piruetas para se apoderar da presidência que na verdade caiu em seu colo sem que ele fizesse um grande esforço para que isto acontecesse. O PMDB tem um chefe da tradição oligárquica brasileira: o maranhense José Sarney. Têm sucedâneos... Romero Jucá, Moreira Franco, Eliseu Padilha e outros em desgraça como Renan Calheiros. Tais chefes são sucedâneos dos antigos coronéis e eles mantêm uma espécie de modo de produção cultural da política e da economia coronelista. 

Sarney se transformou no chefe do partido ao se tornar, por obra do acaso divino, presidente da República em 1985, a partir da doença e morte de Tancredo Neves eleito presidente da República no Colégio Eleitoral do Estado militar 1968. Sarney se tornou presidente na transação pelo alto da qual participaram o comando do exército, FHC, Ulisses Guimarães e outras excelências indignas, pois, antidemocráticas, que fundaram uma era na qual o PMDB comandava a política no governo autocrático de Sarney.

A escolha ilegal de Sarney para assumir o governo presidencial teve como sentido evitar a convocação de eleições diretas no ano de 1975. Sarney presidencial é fruto de ilegalidade política. FHC e Ulisses Guimarães negociaram com os militares e a oligarquia do sertão maranhense (fronteira geopolítica oligárquica do Nordeste com o Norte) a transação pelo alto e a duração de 5 anos de governo autocrático José Sarney, na Assembleia Constituinte de 1988. Ulisses acreditava que seria o primeiro presidente da República do PMDB na primeira eleição presidencial pós-regimes autoritários: militar e de Sarney. FHC se esforçava a fazer a passagem da vida de classe média de professor da USP para a vida da oligarquia urbana paulista! Como não tinha futuro no PMDB na carreira nacional criou com Mário Covas e o empresário cearense Tarso Jeressate, o PSDB.

O PSDB tomou do PMDB o lugar dominante na cena política oligárquica liberal no regime 1988.       

O PMDB é o que melhor se assemelha ao partido burocrático bonapartista, graças a sua lúmpen-elite rústica oligárquica colonial do sertão. Com o PMDB, o sertão bonapartista está em toda parte da vida local e nacional. O governo Temer é o coroamento da partidocracia bonapartista do nosso sertão nordeste-norte, centro-oeste, paulista e mineiro. Ele põe por terra a gramática em narrativa lógica de Marx de que tudo que é sólido se desmancha no ar. No Brasil, a partidocracia, ao contrário da França de Macron, não se desmancha como açúcar no céu da boca das massas.

A política da partidocracia brasileira não entrou na era líquida (ou do açúcar de doce português no céu da boca das massas). Ela continua sólida como o ouro colonial das Minas Gerais que manteve a economia colonial metropolitana imperial funcionando durante o século XVIII. A partidocracia é um fenômeno correlato ao significante imperial colonial do século XVIII mineiro: o passado pesa como chumbo na alma das massas. E também no imaginário amoroso hegeliano pela excelência. As massas formam uma comunidade de consciências que continuam a considerar FHC, Sarney e seus aliados (os jornalistas capengas, capachos para chutar o pau-da-barraca da partidocracia, e sem dentes para morder, mastigar a notícia política do fim da burocracia lúmpen até o bagaço da TV do Sudeste e seus canais satélites locais em todo o continente nacional) como o fenômeno político, par excellence.

Há exceções no jornalismo. Por exemplo, Ricardo Boechat fala em implosão dos partidos. Ele considera a partidocracia bonapartista do sertão o grande mal da nossa política. Mas uma andorinha só não traz o verão da política democrática no jornalismo do rádio ou da televisão. E se a cultura de massa for tomada por uma vontade de potência de autodissolução da partidocracia? o que pode acontecer na política brasileira 2018? Ainda é cedo amor...?


                                                          II                                                                  

Os políticos acreditam que vivem em um país de beócios? Que não há nada que possa substituí-los, nada que possa tomar o lugar da lúmpen-partidocracia bonapartista? Que esta governa para a elite econômica, para a oligarquia financeira mundial, para os interesses dos oligarcas (e jornalistas) da televisão? Que esta collusion é sólida, inquebrantável; que seus elos são feitos com o ouro colonial das Minas Gerais. Que a dominação (articulação lúmpen-hegemônica bonapartista) das mídias de massa (e da partidocracia) sobre a população é algo melhor do que a ditadura aberta do Estado militar 1968? Que se a partidocracia falhar, a oligarquia do sertão instalará uma ditadura totalitária de direita como algo semelhante à ditadura totalitária de esquerda de Maduro, na Venezuela? A política brasileira caminha no fio da navalha?  

Há essa crença ideológica gramatical: Nós (a elite de ferro oligárquica do sertão) jamais perderemos o controle dos fatos! Hoje, burocracias partidárias de esquerda não são correias de transmissão da lúmpen-partidocracia bonapartista? Elas são parte da crença dos fatos sob controle da elite de ferro provinciana do sertão!

De partido ético, PSDB e PT foram absorvidos no privatismo colonial. Com o envolvimento com o governo do PMDB de Temer, o PSDB bebeu a última gota de sangue pemedebista que faltava para se tornar uma lúmpen-burocracia bonapartista. Quanto ao PT, toda a era do bolivariano esteve sob o signo da corrupção lúmpen-bonapartista.

Parece que nenhum partido escapa das garras da Lava Jato. Assim, a partidocracia é o governo de uma classe política lúmpen-bonapartista. A corrupção entrou na corrente sanguínea do sistema político e é patético os inumeráveis apelos dos ministros éticos do STF para que os políticos abandonem sua carreira lastrada no desejo de corrupção e enriquecimento fácil e voltem a se conduzir por uma atitude de valores éticos positivos na cultura política do cotidiano.

A classe política não é um indivíduo hegeliano do tipo homo clausus político. Ela não é um corpo fechado sem ligações com a realidade externa da política. Primeiro, ela é ligada aos jornalistas e cientistas políticos da USP e mais ainda. Ela é ligada aos interesses empresariais de inúmeros tipos (urbano e rural) e parece querer ser o porta-voz do pagamento, sem dar um pior, da dívida nacional com o sistema financeiro internacional.

A classe política é uma organização burocrática lúmpen-bonapartista criminosa em termos políticos, pois, ela é imbuída de uma ideologia gramatical antinacional e antipovo. Tal ideologia tem um complemento. A classe política criminosa atua segundo o princípio da crueldade com o sofrimento de seu próprio povo.

Para finalizar, a classe política é a classe do Estado mínimo e com uma vontade de potência de destruição do Estado nacional máximo de direitos das massas, suporte da democracia de massas.  O Estado mínimo em tela é o Urstaat neoliberal que faz pendant (e se sintetiza e des-sistentiza em um estado contínuo e descontínuo) com o kriminostat em uma guerra de movimento permanente contra o Estado nacional e o povo.       

Essa situação política só é possível graças à memória gramatical colonial da guerra branca latente (ou aberta) oligárquica das máquinas de guerra freudianas ( e à memória dos partidos do século XIX como máquinas de guerra freudianas oligárquico-imperiais) que passou a ditar a gramática em narrativa lógica da realidade brasileira 1988, na cidade e no campo. O PMDB surge aí como a vanguarda gramatical da política ao se transformar em uma máquina de guerra freudiana partidária. Depois foi seguido pelo PT, PSDB, DEM e quejandos...

A máquina de guerra freudiana se define pelo uso sem limite da violência física ou simbólica contra das Ding (O Outro absoluto como sujeito gramatical) ou Coisa política!  O bebê que goza ao estraçalhar o bico do seio da Mãe!

Como primeira máquina de guerra freudiana do regime liberal 1988, o PMDB aparece como o paradigma político das máquinas de guerras freudianas das ilegalidades dominantes e dominadas...

Agora nos encontramos face a face com o segredo da política brasileira. Por que é tão difícil a autodissolução dos partidos políticos? Por que eles não são fenômenos políticos humanos regulados pelo bem comum ou pelo interesse nacional como na França. Eles são máquinas de guerra que não contém em seu cálculo de máquina freudiana a ideia de autodissolução tendo como causa o bem comum ou o interesse nacional.! Eles só são regulados, ou pela tomada do poder nacional, ou pela conservação de si em tal poder!      
                     
 
    


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

EDITORIAL: REFORMA POLÍTICA

EDITORIAL: FIM DA CRISE POLÍTICA

O SISTEMA PARTIDÁRIO É A ESSÊNCIA CORRUPTA DA CRISE POLÍTICA

José Paulo 




Na democracia 1946-1964 se fez e refez uma comunidade de consciências chamada de populismo

Entramos em uma época sem comunidade de consciências = imaginário amoroso hegeliano pela excelência

Com Michels, a classe política é uma ORGANIZAÇÃO burocrática bonapartista. Com Marx, a classe política bonapartista é lúmpen-elite

No século XXI, classe política é sinônimo de ilegalidades dominantes, aética, jogos de azar e kriminostat

A imprensa especializada em política descreve a classe política como um fenômeno de excelência a serviço da soberania popular

O dis-curso de fachada (semblância) da classe política criada e recriada pela imprensa é puro gangsterismo ideológico

A autodissolução dos grandes partidos (PMDB,PT,PSDB,DEM) e do Centrão não é necessária para a democratização do sistema político?

O bloco político totalitário ditatorial é constituído por PMDB,PT,PSDB,DEM e Centrão

A REFORMA POLÍTICA DEVE TER UM ÚNICO ARTIGO: autodissolução legal dos partidos

Os partidos representam "ideias" e interesses do totalitarismo de direita e esquerda. Para o BEM COMUM, autodissolução partidária

As eleições de 2018 devem ter como agentes políticos correntes de opinião no lugar dos partidos

A TV é UNO ideologia; ela simula múltiplas ideologias para dissimular sua ideologia estrutural. Truque da cultura elotro-massa

As correntes de opinião eram a essência da democracia europeia antes das grandes burocracias partidárias capitalistas.

As correntes de opinião na política se fazem com ideias e pensamentos. As instituições da alta cultura são fonte dessa política

O espontaneismo da cultura popular pode ser uma fonte de ideias na formação das correntes de opinião na política 2018

As correntes de opinião na política 2018 retira a política do domínio da gerontocracia partidária

No lugar da gerontocracia partidária, a corrente de opinião significa a juventude ativa espontânea no comando da política 2018

O partido burocrático da sociedade pós-capitalista é um artefato envelhecido, esclerosado, inviável da cultura política mundial


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FRAGMENTOS DA POLÍTICA E DEMOCRACIA

José Paulo

FRAGMENTOS: acasos, encontros, caótico

A cultura de massa eletrônica é princípio de realidade (Estado mínimo neoliberal, sociedade de polícia, razão repressiva)

O Estado máximo é princípio de realidade (dominação, polícia, ditadura) com o princípio do prazer (hegemonia, democracia, cultura)

O Estado mínimo neoliberal é dominação ou princípio de realidade foracluída a alucinação do prazer

Das Ding (Coisa) é o Outro absoluto do sujeito objeto de desejo do princípio de prazer. O Estado tem que ser também prazer

O Estado não pode ser reduzido ao princípio de realidade: ligação da percepção alucinatória com das Ding na razão repressiva

A TV é UNO; o público da tv é MÚLTIPLO; o UNO não pode ser o MÚLTIPLO

Sobre as ciências gramaticais da política: "os pés daqueles que vão te levar já estão diante da porta"

Sobre a política democrática: De fato, se se tem olhos e dedos e recebe couro e ferramentas não significa que possa fazer sapatos

Uma televisão democrática teria como preocupação garantir eleições democráticas em 2018

Um governo totalitário de direita tem como prática reformas econômicas do capital financeiro mundia

Um governo democrático se define pela prática de realização de eleições 2018 democráticas

A política da classe política e da cultura de massas são feitas de crenças irracionais: defesa do Estado mínimo totalitário

A TV brasileira tem uma ideologia estrutural clara e distinta: neoliberalismo totalitário

A era estética grotesca da política é collusion do antigo (PMDB) com o novo (prefeito Dória)

Posição definida na cultura política: direita totalitária (Rodrigo Maia, TV BANDEIRANTE); esquerda totalitária (PT, PSOL, REDE).

PT, PSOL, REDE, BLACK BLOC SÃO TONS CINZENTOS DE UMA MESMA POSIÇÃO POLÍTICA: ESQUERDA TOTALITÁRIA

PSOL E REDE não são de extrema-esquerda e são aliados do TIRANO totalitário Maduro. O que são, então?

A ilegalidade do imigrante é ilegalidade humanitária

A CLASSE POLÍTICA bonapartista do americanismo vai fazer uma REFORMA POLÍTICA totalitária no esgoto de ilegalidades políticas

A TV BANDEIRANTE está estabelecendo (confeccionando) o discurso eletrônico DIREITA TOTALITÁRIA

O maior problema brasileiro é seu saber nacionalista: saber caipira versus saber cosmopolita

A opinião na internet de apoio à execução policial de suspeitos na rua é linchamento totalitário digitalis de direita

A TVGLOBO inventou o jornalista-caipira neoliberal totalitário moderninho

Na democracia 1946-1964 se fez e refez uma comunidade de consciências chamada de populismo

Entramos em uma época sem comunidade de consciências = imaginário amoroso hegeliano pela excelência

domingo, 6 de agosto de 2017

GRAMÁTICA DELEUZE-g – URSTAAT NEOLIBERAL




                                                                    INTRODUÇÃO
No Prefácio à Fenomenologia do Espírito, Hegel fala da imediatez do mundo novo que desponta em seu conceito como um edifício que não está pronto quando se põe seu alicerce. Também o conceito em tela do todo, que foi alcançado, não é o próprio todo como espírito:
“o começo do novo espírito é o produto de uma ampla transmutação sísmica de formas de cultura múltiplas e variadas, a recompensa de um itinerário sinuoso e complicado, e também de um esforço não menos árduo e penoso. Esse começo é o todo, que fora de sua sucessão e fora de sua extensão, retornou a si mesmo, e torna-se o conceito simples do todo. Mas a efetividade desse todo simples consiste no processo pelo qual as precedentes formações, agora tornaram-se momentos, de novo se desenvolvem e se dão nova figuração, mas no seu novo elemento, e no sentido novo que eles adquiriram no processo (Hegel: 13).   

Hegel pensa qual sentido de todo como mundo novo? Ele só pode estar pensando nos signos, sintomas que anunciam a sociedade capitalista que não é ainda uma efetividade acabada como modo de produção especificamente capitalista. O salto qualitativo (que interrompe o crescimento quantitativo) à sociedade capitalista (e a criança está nascida) ocorre na metade do século XIX. O conceito da própria Coisa-criança e a exposição da Coisa como forma espiritual-econômica liberal acabada aparece no livro O capital, de Marx.

Na transição para o novo mundo, Hegel diz:
“Assim, o espírito que se forma morre lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desintegrando fragmento por fragmento o edifício de seu mundo precedente. Seu abalo se revela apenas por sintoma esporádicos; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um incomum são os signos anunciadores de alguma outra coisa que se encontra em marcha. Esse desmoronamento contínuo, que não altera a fisionomia do todo, é bruscamente interrompido pelo sol nascente, que em um relâmpago desenha de uma só vez a forma do mundo novo”. (Hegel: 12).

A Introdução no capítulo do livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte é um diálogo/combate com o Prefácio de Hegel sobre a criação do mundo novo?

Lacan diz: Que o que se escreve sobre a Coisa deve ser considerado como o que se escreve vindo dela, não de quem escreve” (Lacan. S. 19: 113). A Coisa mundo novo em Marx não advém do autor Marx, e sim da própria Coisa modo de produção especificamente capitalista fazendo pendant com a sociedade capitalista?

Lacan acrescenta que: “nada adquire sentido senão a partir das relações de um discurso com outro discurso”. (Lacan. S. 19: 111).

Se não estamos cometendo um erro crasso, o discurso de Marx doa sentido ao Prefácio A fenomenologia do espírito, de Hegel. Por quê? Com o discurso do político Marx (que advém da própria Coisa) ficamos sabendo que o novo mundo hegeliano (que é a criança ainda no útero) é o mundo capitalista. O conceito de capitalismo advém da Coisa-capitalista no discurso de Marx com a descoberta da mais-valia. No discurso lacaniano, a mais-valia (Mehwert) faz pendant com mais-de-gozar ou plus-de-jouir ou, ainda, Mehrlust. (Lacan. S. 16: 30, 29). O plus-de-jouir é o valor sexual da mais-valia que articula a forma política sociedade capitalista de classes fazendo pendant com seu Estado mínimo liberal. Tal valor-sexual está associado ao desejo fálico do capitalista, ou melhor, ao discurso do capitalista (S. 16:36- 38; Lacan. 2003: 516-517).

Através do discurso de Marx se lê Hegel e através do discurso de Lacan se lê Marx e Hegel:
“O que deixa uma sombra de sentido no discurso de Hegel é uma ausência, e precisamente a ausência da mais-valia, tal como extraída do gozo no real do discurso do mestre/senhor. Mas, ainda assim, essa ausência assinala alguma coisa. Ela realmente assinala o Outro não como abolido, mas justamente como impossibilidade de um correlato, e é ao presentificar essa impossibilidade que ela colore o discurso de Hegel”. (Lacan. S. 19: 114).

O colorido do discurso de Hegel é o pintar um quadro colorido do mundo novo que ainda está no útero, como embrião. Por não ter um significante filosófico correlato do significante da crítica da economia política (mais-valia), Hegel pode colorir com poesia fenomenológica a criança no útero. Todo pai não faz isso? Assim sendo, Marx e depois Lacan descoloriram o discurso hegeliano.
Hegel lida com a forma em si, o embrião. Marx lida com a forma como razão cultivada (como cultura política) e desenvolvida como razão instrumental ou forma econômica efetivada. A dialética da forma embrião capitalista á a forma virtual que se atualiza como dialética idealista colorida. A transdialética da forma desenvolvida é a dialética materialista que descolore o pensamento hegeliano sobre a sociedade capitalista como significante (todo liberal acabado) sem correlato na fenomenologia de Hegel.

 Em Marx, a liberdade consciente de si do ato de pensar a dialética materialista, que em si repousa na matéria (Coisa capitalista), que não deixa de lado a oposição à dialética idealista (que em si repousa no espírito) e ali a abandonou (no território da metafísica), mas se reconciliou com ela transformando-a em forma de ideologia gramatical da sociedade da modernidade capitalista. (Hegel: 20; Marx. 1974: 136).   

Retorno ao cotejamento do Prefácio com O 18 Brumário... para mostrar o ato de descolorir Hegel.
Na Coisa-no-útero Marx fala em revoluções burguesas coloridas pela estética historial do cômico, do witz (bufonaria) e do trágico:
“Mas por menos heroica que se mostre hoje essa sociedade, foi não obstante necessário heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil e batalhas de povos para torná-la uma realidade. E nas tradições classicamente austeras da República romana, seus gladiadores encontraram as ideias e as formas de arte, as ilusões de que necessitavam para esconderem de si próprios as limitações burguesas de seu conteúdo e de suas lutas e manterem seu entusiasmo no alto nível da grande tragédia histórica”. (Marx. 1974: 336, 331-332).

O significante tragédia histórica é correlato do significante tragédia hegeliana e vai além ao se inscrever no real do processo historial da política burguesa. O processo político ficcional como estética em Hegel é lido como estética que invade o real da revolução burguesa: tragédia histórica!

Contudo, o efeito da revolução política burguesa faz pendant com a revolução do modo de produção especificamente capitalista para fazer nascer a criança em um relâmpago: a sociedade capitalista. Assim, Hegel lê Marx: o começo do novo espírito é o produto de uma ampla transmutação sísmica de formas de cultura múltiplas e variadas, a recompensa de um itinerário sinuoso e complicado, e também de um esforço não menos árduo e penoso. Ainda nos encontramos diante de um processo político dialético multicolorido.

A sociedade capitalista é o verdadeiro como sujeito gramatical. Trata-se da essência virtual que se atualiza progressivamente e nasce em um relâmpago com o desenvolvimento, afinal, da forma acabada. É a essência como algo efetivo, ou melhor, a experiência na riqueza da forma desenvolvida e também como forma para si (desenvolvida como forma de cultura política e razão instrumental, forma efetivada). Ao contrário: “A vida de Deus e o conhecimento divino bem que podem exprimir-se como um jogo de amor consigo mesmo; mas é uma ideia que baixa ao nível da edificação e até da insipidez quando lhe falta o sério, a dor, a paciência e o trabalho do negativo”. (Hegel: 18).

O discurso de Marx sobre a sociedade capitalista lido por Hegel:
“- L’esprit qui se sait ainsi développé comme esprit est la Science. Elle est sa réalité effective et le royaume qu’il se construit dans son propre élément”. (Hegel: 23).    
                                                                            

                                                                        ESTADO MÍNIMO

Um efeito da instalação da sociedade capitalista é o Estado mínimo liberal. Marx diz que ele é o comitê central da burguesia. Trata-se de um embrião da ideologia gramatical totalitária quando retomado por Ludwig Von Mises em seu livro Liberalismo?

Sob efeito da luta de classes e de outros fenômenos de cultura política da economia (igualitarismo democrático, e o direito natural de Pufendorf e outros jusnaturalistas, a influência de Marcílio de Pádua sobre o contratualismo onde o povo é a fonte de todo poder político etc.), o Estado mínimo é substituído pela forma do Estado máximo com sua Bürokratie simbólica (que já não é a burocracia do burocrata hegeliano [Marx. 1982: 357]), necessária para assegurar os direitos dos povos modernos da sociedade capitalista. A   Bürokratie do trabalho simbólico ou dos trabalhadores do conhecimento (Drucker: XVII) é o fenômeno cultural político do Estado integral que faz a junção da administração privada com a administração pública (como aparato da sociedade pós-capitalista), a interseção da sociedade política com a sociedade civil. (Weber: 1072-1074). Tal configuração RSI (Real/Simbólico/Imaginário) sustenta a possibilidade da sociedade pós-capitalista como era dos direitos dos povos nacionais no domínio das relações internacionais:
“O problema, bem entendido, não nasceu hoje. Pelo menos desde o início da era moderna, através da difusão das doutrinas jusnaturalistas, primeiro, e das Declarações dos Direitos do Homem, incluídas nas Constituições dos Estados Liberais, depois, o problema acompanha o nascimento, o desenvolvimento, a afirmação, numa parte cada vez mais ampla do mundo, do Estado de direito. Mas é também verdade que somente depois da Segunda Guerra Mundial é que esse problema passou da esfera nacional para a internacional, envolvendo – pela primeira vez na história – todos os povos”. (Bobbio: 49).

Além do Estado de direito, o Estado máximo de direitos dos povos se constitui um problema para a economia capitalista da sociedade pós-capitalista totalitária.        

É natural que ela se torne o alvo primordial da sociedade pós-capitalista totalitária.

O novo Estado mínimo da sociedade pós-capitalista é um significante neoliberal de invasão do real dos povos nacionais. O Estado neoliberal pós-capitalista faz pendant com o significante organização burocrática bonapartista do neoamericanismo. A classe política dessa sociedade pós-capitalista é uma organização burocrática bonapartista do neoamericanismo. Assim, a classe política torna-se uma vontade de potência de destruição do Estado máximo pós-capitalista dos povos nacionais.       
                                                                          
                                                                          II

O que vai ser apresentado aparece até o momento como acidental na percepção do homem comum da cultura de massa que invadiu o real das ciências humanas:
“Mais que l’accidental comme tal, séparé de son pourtour, ce qui est lié et effectivement réel seulement dans sa connexion à autre chose, obtienne un être-là propre et une liberté distincte, c’est lá la puissance prodigieuse du négatif, l’énergie de la pensée, du pur moi. La mort, si nous voulons nommer ainsi cette irréalité, est la chose la plus redoutable, et tenir fermement ce qui est mort, ce qui exige la plus grande force. La beauté sans force hait l’entendement, parce que l’entendement attend d’elle ce qu’elle n’est pas en mesure d’accomplir. Ce n’est pas cette vie qui recule d’horreur devant la mort et se préserve pure de la destruction, mais la vie qui porte la mort, et se maintient dans la mort même, qui est la vie de l’esprit. L’esprit conquiert sa vérité seulement à condition de se retrouver soi-même dans l’absolu déchirement”. (Hegel: 29).

A sociedade totalitária pós-capitalista é a morte da história universal do espírito em absoluto dilaceramento. Em Marx e Lacan, a história universal do espírito aparece como soberania do discurso do mestre/senhor em sua última forma: discurso do capitalista. Portanto, na gramática em narração lógica hegeliana, trata-se da morte da história do discurso do capitalista. Passemos ao acidental.

Primeiro, as ilegalidades POLÍTICAS como fenômeno da cultura política no O 18 do Brumário como o significante lúmpen-proletariado (Marx. 1974: 372) como um fenômeno que extrapola a sociedade capitalista e advém como fenômeno da sociedade pós-capitalista.

Em Foucault o lúmpen-proletariado tem como correlato o significante grandes ilegalidades. No meu livro Revolução política, o correlato é ilegalidades dominantes. Este correlato torna mais preciso a realidade grandes ilegalidades em um contraponto com as ilegalidades dominadas no fenômeno cultural político econômico bonapartismo do americanismo (Bandeira da Silveira: 138-140). Em Foucault, as ilegalidades dominantes são expostas em um semi-dizer claro, mas faltou o significante conceitual que as suporta que é o kriminostat (Virilio: 54-55) fazendo pendant com as ilegalidades dominantes:
“Um é o que diminui a utilidade (ou faz aumentar as desvantagens) de uma delinquência organizada como uma ilegalidade específica, fechada e controlada; assim, com a constituição em escala nacional ou internacional de grandes ilegalidades ligadas aos aparelhos políticos e econômicos (ilegalidades financeiras, serviços de informação, tráfico de armas e de drogas, especulações imobiliárias), é evidente que a mão-de-obra um pouco rústica e manifesta da delinquência se mostra ineficiente”. (Foucault: 267).      

O Estado mínimo neoliberal é o significante do Estado totalitário que faz pendant com o kriminostat:
“L’Etat totalitaire n’est pas un maximum d’Etat, mais bien plutôt, suivant la formule de Virilio, L’Etat minimum de l’anarcho-capitalisme”. (Deleuze: 578).

O anarco-capitalismo não é mais um Estado da sociedade capitalista. Ele é um Estado mínimo da sociedade pós-capitalista. Então, o capitalismo acordou o Urstaat e lhe dá novas forças e formas na sociedade pós-capitalista: “Le capitalisme a réveillé l’Urstaat, et lui donne de nouvelles forces”. (Deleuze: 575).

Na forma do Estado mínimo neoliberal, o contratratualismo é uma fachada (semblância) do agir do Urstaat neoliberal. Ele é processo de subjetivação da ideologia gramatical contratualista da soberania popular que significa assujeitamento dos povos nacionais ao Urstaat da sociedade pós-capitalista:
“Non seulement, como disait Hegel, tout Etat implique ˂les moments essentiels de son existence en tant qu’Etat >, mais il ya un unique moment, au sens de couplage des forces, et ce moment de l’Etat, c’est capture, lien, noeud, nexum, capture magique. Faut-il parler d’um second pôle, qui opérerait plutôt par pacte et contrat? N’est-ce pas plutôt l’autre force, telle que la capture forme le moment unique du couple? Car les deux forces, c’est surcodage des flux codés, et traitement des flux décodés. Le contrat est une expression juridique de ce deuxième aspect: il apparaît comme le procès de subjectivation, dont l’assujeittissement est le résultat”. (Deleuze: 575).
Deleuze e Guattari estão certos que:
“De ce point de vue, les Etats modernes ont avec l’Etat archaïque une sorte d’unité trans-spatiotemporelle”. (Deleuze: 574).

As críticas sobre a inexistência deste significante Estado moderno em junção com o Estado arcaico (Urstaat) adquiriram um efeito de realidade na cultura ocidental que lançaram para o esquecimento a gramática em narrativa lógica deleuze-guattariana (Deleuze-g). Reconstituir o território dos ataques aos nossos autores é impossível e inútil aqui. Porém, a crítica insistia que a gramática de deleuze-g nada tinha a ver com a sociedade capitalista. Tal crítica estava correta!

A gramática deleuze-g já se referia à sociedade pós-capitalista. O Urstaat mínimo neoliberal era apenas um embrião hegeliano nas décadas de 1970-80. O Urstaat neoliberal não surgirá como um relâmpago. Nem nos livros de Peter Drucker ele aparece como forma política da sociedade pós-capitalista. A hipótese da gramática deleuze-g ˂é a energia do pensar, do puro Eu>, como diz Hegel já supracitado.

A gramática deleuze-g é uma gramática para o século XXI da sociedade pós-capitalista. Ela articula ilegalidades dominantes, kriminostat, Estado mínimo neoliberal ou Urstaat neoliberal [anarco-capitalista] e discurso lacaniano, máquina de guerra freudiana, Okhrana Informacional Digitalis, tirania totalitária da sociedade pós-capitalista (Coréia do Norte, Turquia, Venezuela)  em um único espaço de discurso transdialético gramatical materialista do político Deleuze-g.

A gramaticalização do real pode ser atualizada pelos signos, sinais e sintomas da realidade-embrião-genética. O território discursivo parisiense era esse esforço para dizer o que seria a anatomia e a fisionomia do século XXI, pois, o século XX já era o passado da gramática parisiense da década de 1970:
“Cet être passé est déjà propriété acquise à l’esprit universel, propriété qui constitue la substance de l’individu [cultural] et qui, en se manifestant à l’extérieur de lui, constitue sa nature inorganique. La culture de ce point de vue, considérée sous l’angle de l’individu, consiste en ce qu’il acquiert ce qui est présenté devant lui, consomme en soi-même sa nature inorganique et se l’approprie; mais, considérée sous l’angle de l’esprit universel, en tant que cet esprit est la substance, cette culture consiste uniquement en ce que la substance se donne la conscience de soi, et produit em soi-même son propre devenir et sa propre  réflexion”. (Hegel: 26).      

A teoria da gramática da sociedade e da política no Prefácio é um raio em um céu azul da realidade do século XXI deleuziano-g?

Encerro com o belo texto de uma gramática em narrativa lógica colorida em imagens-clarões em um céu azul do fantasma do devir:
“Le début de la culture du processus de la libération hors de l’immédiateté de la vie substantielle doit toujours se faire par l’acquisition de la connissance des principes fondamentaux, et des points de vue universels; il doit se faire seulement d’abord en s’élevent par ses propres efforts à la pensée de la chose en général, sans oublier de donner les fondements pour la soutenir ou la réfuter, en appréhendant la riche plénitude concréte selon ses déterminabilités, et en sachant formuler sur elle une sentence bien construit et un jugement sérieux. Mais ce début de la  culture fera bientôt place au sérieux de la vie dans sa plénitude, sérieux qui introduit dans l’expérience de la chose même; et quand de plus la rigueur du concept descendra dans la profondeur de la chose, alors ce genre de connaissance et d’appréciation sauront rester à la place qui leur convient dans la conversation”. (Hegel: 7-8).


BANDEIRA DA SILVEIRA, José Paulo. Revolução política. Cultura brasileira, indústria de comunicação, instituições. RJ: Papel e Virtual, 2001
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. RJ: Editora Campus, 1992
DELEUZE E GUATTARI, Gilles e Felix. Mille plateaux. Capitalisme et schizophrénie. Paris: Minuit, 1980
DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. SP: Pioneira, 1993
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da violência nas prisões. Petrópolis: VOZES, 1977
HEGEL, G. W. F. La phénoménologie de l’esprit. T. 1. Tradução de Jean Hyppolite. Paris: AUBIER, 1941
LACAN, Jacques. Outros Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003
--------------------  O Seminário. Livro 16. De um Outro ao outro. RJ: Zahar, 2008
--------------------  O Seminário. Livro 19. ...ou pior. RJ: Zahar, 2012
MARX E ENGELS, Carlos e Federico. v. 1. Marx. Escritos de Juventud. México: Fondo de Cultura Económica, 1982,  
MARX. Os Pensadores. XXXV. SP: Abril Cultural, 1974
MISES, Ludwig Von. Liberalismo. RJ: José Olympio e Instituto Liberal, 1987
VIRILIO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977
WEBER, Max. Economia y sociedade. México: Fondo de Cultura Económica, 1984