sábado, 9 de dezembro de 2017

LACAN E A INTERNET

José Paulo

No terceiro-mundo, a abordagem do cargueiro mundo digital ou internet industrial em junção com a política gramatical mundial é apenas um sonho de uma noite de verão carioca para o pobre: muito suor e noites mal dormidas. Trata-se do grau zero do saber universitário brasileiro.
Para as ciências gramaticais da política, a abordagem do navio cargueiro em tela começa com o estabelecimento dele como artefato R.S.I. (Real/Simbólico/Imaginário).
                                              LALANGUE E A VIA PRUSSIANA

A interpretação gramatical-lacaniana (sem o objeto internet) da Via Prussiana me levou até aqui:
 “A via prussiana do capitalismo ocidental se reflete na transformação do trans-sujeito capital industrial como soberano na Terra. Trata-se, também, da transição do inconsciente freudiano para o inconsciente lacaniano ou LALANGUE.

Temos a passagem: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem, eu não disse pela”. (Lacan. 2003: 490; 1975: 126)) para lalangue:
“Vous voyez qu’à conserver encore ce comme, je m’en tiens à l’ordre de ce que j’avance quand je dis que l’inconscient est structuré comme un langage. Je dis comme pour ne pas dire, j’y reviens toujours, que l’inconscient est structuré par un langage. L’inconscient est structuré comme les assemblages dont s’agit dans la théorie des ensembles sont, comme des lettres. (Lacan. 1975: 46-47).      

Lalangue é o inconsciente da via prussiana mundial do ocidente do século XXI. Há toda uma transformação na linguagem mais radical que significa o desaparecimento dela como tal: os americanos não sabem a gramática do inglês. Lacan diz com todas as letras:
“Si j’ai dit le langage est ce comme quoi l’inconscient est structuré, c’est bien parce que le langage, d’abord, ça n’existe pas. Le langage est ce qu’on essaye de savoir concernent la fonction de lalangue”. (Lacan. 1975: 126).

A transformação diz que lalangue ocupa o lugar da gramática e do gramático na articulação da hegemonia da política mundial? Lacan diz:
“Changement de discours – ça bouge, ça vous, ça nous, ça se traverse, personne n’accuse le coup. J’ai beau dire que cette notion de discours est à prendre comme lien social, fondé sur le langage, et semble donc n’être pas sans rapport avec ce qui dans la linguistique se spécifie comme grammaire, rien ne semble s’en modifier”. (Lacan. 1975: 21).

Lalangue é a matematização que invade o real compatível com o discurso analítico. O discurso analítico faz pendant com a gramática em narrativa lógica do domínio do real do capital fictício no planeta:
“La mathématisation seule atteint à un réel – et c’est en quoi elle est compatible avec notre discours, le discours analytique – un réel qui n’a rien à faire avec ce que la connaissance traditionnelle a supporté, et qui n’est pas ce qu’elle croit, réalité, mais bien fantasme.
Le réel, dirait-je, c’ets le mystère du corps parlant, c’est le mystère de l’inconscient”. (Lacan. 1975: 118).

Tal invasão produz efeitos na relação do discurso com o sujeito gramatical, em geral. O sujeito da via prussiana do capitalismo mundial fictício é superdeterminado pela ditadura mundial do capital fictício. O sujeito deixa de possuir a autonomia relativa necessária para a persistência no ser do real da sociedade democrática. É claro que tal acontecimento se faz no domínio das lutas de classes no Ocidente. Pelas lutas de classes, o gramático rethor percipio tenta resgatar a autonomia relativa do sujeito gramatical como lutas de classes na narrativa nacional, internacional e mundial.

Lalangue se traduz por um discurso do político no qual o sujeito é um epifenômeno do significante lacaniano:
“O que justifica essa regra é que, precisamente, a verdade não é dita por um sujeito, mas suportada”. (Lacan. 2008: 67). 

A soberania do significante matemático topológico é a invasão no território do trans-sujeito pelo fascismo lacaniano, pois:
“Mais de uma coisa no mundo é passível do efeito do significante. Tudo o que está no mundo só se torna fato, propriamente, quando com ele se articula o significante. Nunca, jamais surge o sujeito algum até que o fato seja dito. Temos que trabalhar entre essas duas fronteiras”. (Lacan. 2008: 65).

Para encerrar este enunciado, o sujeito lacaniano é um efeito do discurso como articulação no real de lalangue:
“O que enuncio do próprio sujeito como efeito do discurso”. (Lacan. 2008: 47).
                                                                                      IV

 O Kriminostat em associação com a Okhrana nasceu após a II Guerra Mundial por um agir político gramatical do Papa Pio XII, o Papa nazista. O Papa calculou que o PCI governaria a Itália. Então, fez uma coalizão do governo do invisível com a CIA, a máfia ítalo-americana, máfias italianas para governar a Itália. O uso da violência real simbólica e gramatical (RSG) está na origem do nascimento do Estado do governo do invisível. Percebam que o governo do invisível incluiu uma junção do campo científico (psicologia, não toda, psiquiatria, inclusive a psiquiatria fascista lacaniana em associação com a indústria farmacêutica) com o capitalismo do capital fictício.

 A propósito, na Prússia Topológica Americana lacaniana, a realidade dos fatos permanece subjugada à fantasia transformando a realidade objetiva em aparência da semblância:
A ce titre, comme l’indique ailleurs dans mes graphes la conjonction pointée de ce $ et de ce a, ce n’est rien d’autre que fantasme. Ce fantasme où est pris le sujet, c’est comme tel le support de ce qu’on appelle expressément dans la théorie freudienne le principe de réalité”. (Lacan. 1975: 75)”. (link).
                                                                    CONTINUAÇÃO
Nunca, jamais surge o sujeito algum até que o fato seja dito.

O que enuncio do próprio sujeito como efeito do discurso.

Qual é o sujeito lacaniano como efeito do discurso digital Facebook?

O capitalismo industrial do Facebook faz persistir no real do ser da sociedade mundial a sociedade pós-capitalista revisitada de Peter Drucker?
O que é a organização industrial digital?
“Uma organização é um GRUPO HUMANO, composto por especialistas que trabalham em conjunto em uma tarefa comum. Ao contrário da sociedade, da comunidade ou da família – os agregados sociais tradicionais – uma organização não é concebida e baseada na natureza psicológica dos seres humanos, nem em suas necessidades biológicas. Contudo, embora seja uma criação humana, ela é feita para durar – talvez não para sempre, mas por um período de tempo considerável”. (Drucker: 27).

O Facebook é uma organização industrial digital no sentido supracitado. No entanto, ele não pode ser reduzido a uma organização com administração de especialistas providos de um saber digital. O Facebook tem cerca de 2 bilhões de usuários. Ele é uma organização americana com tentáculos ou redes digitais em vários continentes. O usuário é o lugar da constituição do trans-sujeito digital nas nações organizando a imanência e, ao mesmo tempo, transcendendo a subjetividade nacional ou continental.

O Facebook é o capitalismo industrial da sociedade pós-capitalista digitalis. 

Trata-se de um fenômeno geoeconômico que é a plurivocidade digitalis geopolítica mundial. Tal característica faz com que o Facebook seja visto por determinados povos e Estados-nação como um invasor das suas subjetividades, isto é, um invasor de corpos, para lembrar o próprio filme americano.

Claro que todas as belas e científicas teorias de Foucault precisam ser relidas a partir do trans-sujeito lacaniano-gramatical Facebook (e da indústria dos jogos digitais que envolvem (em bilhões) em suas redes narrativas massas de crianças e jovens em todo o planeta.

Nunca, jamais surge o sujeito algum até que o fato seja dito.

O fato Facebook precisa ser dito para que surja o sujeito gramatical facebook. O fato é que há toda uma sociedade pós-capitalista do capitalismo digital que transformou radicalmente o ser da política mundial, nacional ou local. No século XXI, a gramática em narrativa lógica da ciência política precisa ser revisitada e redefinida. Significantes como dominação, hegemonia, Estado constitucional, Constituição, Estado-nação etc. precisam ser retrabalhados na relação da sociedade pós-capitalista digital com a via prussiana do capitalismo mundial. Para começar, uso um texto que já estabeleceu (sem a internet) a mudança em tela:
    “A questão do Estado era discutida como estando associada à identidade nacional e à consciência nacional:
“Por conseguinte, também o sentimento de identidade nacional, a consciência do valor próprio dos Alemães, muito particularmente na República Federal, são mais vacilantes, mais inseguros, numa palavra, mais problemáticos do que na maioria dos outros Estados europeus. Os Dinamarqueses, os Franceses, os Ingleses, apesar da perda de poder e status que sofreram todos os países europeus, ainda não têm, actualmente, grandes dificuldades com a sua identidade nacional. Os Alemães, e principalmente os alemães federais, têm dificuldades consideráveis. Não se fala muito disso, em parte, porque, devido à consciência nacional convulsivamente exagerada do Terceiro Reich, quaisquer tentativas dos Alemães para falarem publicamente da sua consciência nacional levanta a suspeita de que se estará a querer reviver a exagerada consciência nacional do Terceiro Reich”. (Elias: 55).

A questão do Estado fez a passagem para a via prussiana do americanismo com a alteração no conceito londrino de Estado sociológico:
“Todas as organizações têm perfis políticos, mas apenas no caso do Estado é que envolve a consolidação de um poder militar em associação ao controle dos meios de violência dentro de uma extensão territorial. Um Estado pode ser definido como uma organização política cujo domínio é territorialmente organizado e capaz de acionar os meios de violência para sustentar esse domínio. Tal definição é próxima daquela de Weber, mas não destaca uma reivindicação ao monopólio dos meios de violência ou o fator de legitimidade”. (Giddens: 45).

O Estado nacional se reparte em dois quanto ao usa da violência, ou real, ou simbólica, ou gramatical.

O Estado torna-se o duplo Estado; um Estado constitucional, Estado legal; um Estado sem controle da Constituição, um Estado ilegal. A política mundial é governo constitucional do visível e governo inconstitucional do invisível; a classe política torna-se - por efeito da realidade política supracitada uma organização política sociológica, gramaticalmente, criminosa.

O Estado inconstitucional é o Criminostat (Virilio: 54-55). Foucault pensa o criminostat em junção com o capitalismo fictício e o campo de poderes gramaticais do governo do invisível. As ciências gramaticais da política englobam as transformações vistas por Paul Virilio e Foucault na ideia de Prússia Gramatical Americana”.  

Os sujeitos gramaticais dominação, hegemonia, Estado, classe social, lutas de classes precisam ser ditos também como efeito do discurso do gramático facebookiano. Para isso é necessário estabelecer a relação entre Lalangue (inconsciente lacaniano) via prussiana e internet.

O Facebook persiste no real do ser da sociedade pós-capitalista como antagonismo entre a burguesia administrativa digital e as massas de usuários que fornecem a mais-valia da corporação capitalista e ainda mais doam um plus-de-jouir, ou Mehrlust = mais-de-gozar (Lacan. 2008: 30). O mais-de-gozar cedido é a aparência da semblância da inexistência do antagonismo entre a burguesia digital lacaniana e as massas gramaticais digitais. O usuário goza em fornecer mais-valia (Mehwert) para a burguesia digital.  Na aparência da semblância do mundo digital não existe lutas de classes, e si, sobretudo, lutas pessoais entre os usuários mediadas pelo algoritmo. Há também os robôs algaritmizados usados nas lutas da internet. Aí, posição de partidos são os sujeitos dessas lutas.

Mehrlust e Mehwert são fatos artefatos de lalangue digitalis da via prussiana da sociedade pós-capitalista gramatical lacaniano mundial.  

Não existe lutas de classes gramaticais assim como não existe uma sociedade do burguês digital. A foraclusão das lutas de classes gramaticais na grande narrativa política nacional (local), ou internacional, ou mundial é um efeito da junção da via prussiana lacaniano-gramatical (lalangue) com a luta consciente da bürokratisch (Marx: 357, 359) digital gramatical, que bloqueia qualquer gramática (e gramático) que exponha as lutas de classes na vida da grande política narrativa da contemporaneidade.

Há lutas de classes na sociedade pós-capitalista digital, pois, há extração de Mehwert e doação espontânea de Mehrlust. No entanto, a cultura digitalis é o ópio das massas de usuários embriagados pelo narcisismo das pequenas diferenças freudiano (Freud. v. XXI: 136); v. XXIII: 111), que é a gramática em narrativa logica  da praxis de uma alienação exuberante, que cria uma paisagem monótona da pessoalização digitalis do mundo-da-vida (e da política) em escala planetária. Cria e recria também a guerra civil racial e a guerra civil sexual: mulher versus homem; realidade ou totalidade fálica racional versus não-todo irracional.         
        
                                                                                   IV

O inconsciente lacaniano põe um fim na era do inconsciente freudiano. No lugar da sexualidade da carne entra a topologia matemática lacaniana de que não existe relação sexual. Trata-se do fim da soberania do desejo sexual na cultura política do Ocidente, especificamente, na cultura política da América. O sexo é substituído pela matemática do desejo do algoritmo. Como isso é possível?

Lalangue só se tornou visível e inteligível graças a dominação e articulação da hegemonia das massas grau zero alfabetizadas fora da internet através do algoritmo.

O algoritmo faz parte de significantes gramaticais como dominação, hegemonia, Estado, sociedade nacional ou mundial, sujeito gramatical, cultura, política, sociedade de classes gramaticais, lutas de classes gramaticais em si e economia política. Para não me estender tomo, principalmente, a relação do algoritmo com as massas gramaticalizadas da internet.

Qual é a praxis do algoritmo?

O algoritmo-lalangue invade e atravessa o Estado constitucional, pois, a economia política do Criminostat é algoritimizada. O mundo funciona por redes narrativas de algoritmos que fazem a junção da dominação com a articulação da hegemonia, do Estado Constitucional com o Estado inconstitucional. Daí, altera-se a essência do significante Constituição, pois, ele como fenômeno virtual tem que se atualizar na sociedade pós-capitalista das massas gramatical-lacanianas de lalangue.

Na América, Obama tomou o poder dos EUA via táticas que articulavam a hegemonia de um preto da elite sobre a burguesia democrata ariana e a cúpula do partido democrata. Depois, a articulação preta da hegemonia americana derrotou a burguesia republicana ariana e seu partido republicano. Após Obama, a política mundial ocidental passou a se dirigir às massas de internautas. Obama é o signo do começo político da era digitalis, ou seja, da era do trans-sujeito digital na política representativa. 
       
No Brasil, ocorre fenômenos como bonapartismo das redes sociais digitais, utilitarismo via prussiana etc. ocorrem como um ensaio de periferia lacaniana R.S.I:


A periferia corresponde à curvatura da política como poliedro mistilíneo:


 Eis meu texto que altera duzentos anos de representação geométrica da política representativa ocidental e além:
                                                 POLÍTICA E GEOMETRIA GRAMATICAL
A “linguagem” da Revolução Francesa estabeleceu a representação geométrica da política ocidental como um espaço plano em linha reta que vai da extrema-esquerda à extrema-direita. A velha ciência política e a “linguagem” política dos políticos e jornalistas continuam operando com a representação geométrica em tela.
As ciências gramaticais da política pensam a política como cultura política gramatical geométrica poliédrica poligonal mistilínea. O poliedro é um sólido geométrico com quatro ou mais faces, delimitado por polígonos planos. O polígono é qualquer figura geométrica plana formada por números iguais de lados e ângulos. O polígono mistilíneo é um polígono que apresenta alguns lados curvilíneos e outros lados retilíneos.
Vou tomar como ilustração o Brasil.
Os lados retilíneos são extrema-esquerda (ainda não deu o ar de sua graça); centro-esquerda (Marina Silva, podendo ser deslocada para o lado curvilíneo bolivariano); centro-direita (PSDB, podendo ser deslocado para a extrema-direita. DEM e PMDB se encontram no lado extrema-direita.
Os lados curvilíneos são: o bonapartismo, de Bolsonaro; o bolivariano (totalitário à esquerda), de Lula da Silva; o utilitarismo via prussiana dos partidos invisíveis do b.b.b. (bala, boi, bíblia) na tela política gramatical; a narrativa do sujeito gramatical gramático das ciências gramaticais da política, da revolução democrático-burguesa de massas gramaticalizáveis. 

Com Geraldo Alckmin na presidência do PSDB (09/12/2017), o PSDB está sendo arrastado para o lado do poliedro via prussiana do totalitarismo paulista da Opus Die.  

Tal espectro político pode ser usado para definir a posição também da cultura de massa que funciona como um partido político ou PRÍNCIPE ELETRÔNICO, de Octavio Ianni. Porém, a televisão funciona em redes jornalísticas que a ligam aos lugares da tela política gramatical supracitada”.
O bonapartismo da internet faz pendant com o lupenproletarido gramatical que é um trans-sujeito movido tatilmente e por algoritmos. O gramático das ciências gramaticais da política se realiza digitalmente sob a dominação do algoritmo. Os outros sujeitos gramaticais ainda são invisíveis na tela gramatical algoritma, excetuando o bolivariano. Os partidos da parte invisível da tela gramatical da política utilitarismo via prussiana se ligam à sociedade pós-capitalista por sua articulação nazista com o Criminostat. 
O novo modelo geométrico da política mundial já está a caminho. Para ficar em uma ilustração, Donald Trump é uma curvatura (periferia R.S.I.) que pode significar inversão do poliedro em tela:



Toda a transformação da União Europeia (EU) se deve a um agir das massas gramaticalizáveis na era da lalangue-algoritmica, em uma aparência de semblância da realidade dos fatos. A fantasia lacaniana de uma Grã-Bretanha melhor fora da UE é um efeito da política do discurso do inconsciente lacaniano da via prussiana. Este efeito significa uma regressão do presente a épocas gloriosos do passado, agora, apenas um imaginário digitalis.

Para não cansar, em demasia, o leitor acabo com o sujeito gramatical luta de classes na era da via prussiana do algoritmo lacaniano.  

Assim como não existe o sujeito gramatical relação sexual, a era do algoritmo lacaniano tenta encerrar na grande narrativa da política mundial (e nacional) o sujeito gramatical lutas de classes. O novo modelo geométrico da política brasileira começa a resgatar o lugar das lutas de classes gramaticais. Ligar o bonapartismo carioca ao lumpenproletarido digital e o lado do poliedro utilitarismo da via prussiana ao capital fictício, (isto é, à aliança do capital de commodities nacional com o capital fictício [oligarquia financeira mundial]) é um começo para retomar a luta de classes (não como fenômeno da sociologia da sociedade capitalista industrial como tal) como um acontecimento gramatical – como lutas de classe gramaticais no território do trans-sujeito grande narrativa política nacional.  

É só o início de uma jornada da revolução democrática de massas gramaticalizáveis pelas ciências gramaticais da política. Como a luta se realiza dentro da sociedade pós-capitalista da internet, quaisquer percalços podem acontecer.

A propósito! Caminhante, o caminho se faz no caminhar!

DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. SP: Pioneira, 1993
ELIAS, Norbert. A condição humana. RJ: Difel, 1991
FREUD, Sigmund. Obras Completas. v. XXI. RJ: Imago, 1974
--------------------------------------------   v. XXIII. RJ: Imago, 1975
GIDDENS, Anthony. O Estado-nação e a violência. SP: EDUSP, 2001
LACAN. Jaques. Le Seminaire. Livre XX. Encore. Paris: Seul, 1975
-------------------  Outros Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003
------------------    O Seminário. De um Outro ao outro. Livro 16. Paris: Zahar, 2008
------------------------------------    De um discurso que não fosse semblante. Livro 18. Paris: Zahar, 2009
MARX. Obras Fundamentales. Carlos Marx e Frederico Engels. Marx, Escritos de Juventud. México: Fundo de Cultura Económica, 1982
VIRILO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977    
         



   
      
                                                                                     




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

DA PRUSSIA GRAMATICAL-LACANIANO AMERICANA

 José Paulo

                                                                                           I
A cultura de massa americana é obcecada por temas que falam do fim da civilização americana. O fim da humanidade americana e macacos governando a América. O macaco é uma metáfora grosseira dos povos do terceiro mundo (tratada com simpatia) - governando o território trans-subjetivo América.  

Na tela gramatical invisível da América, a metáfora supracitada é o signo de um Estados Unidos governado por macacos americanos. Trata-se da transformação dos americanos em macacos, isto é, em um povo do terceiro mundo, um povo que criou uma maravilhosa civilização capitalista democrática e regrediu para a barbárie de uma vida de macacos que falam, claudicantemente, inglês, mas não escrevem em inglês; é um povo que perdeu para sempre o poder gramatical de usar a língua escrita para articular uma sociedade de comunicação da civilização ocidental. Eu não odeio os americanos!

Depois da II Guerra, a América se construiu como uma civilização cuja articulação da hegemonia da política ficava, em grande parte, nas mãos dos políticos em coalizão com o jornalismo impresso, televisivo, radiofônico. Muitos cientistas políticos viram aí a civilização democrática de massas, quando era apenas uma cultura política de massa industrial. Tratava-se da grande indústria cultural de Adorno.
Marxista alemães e americanos viram na cultura de massa industrial um meio potente de mudança da vida espiritual americana. A indústria cultural aprofundava e intensificava o americanismo definido por Heidegger:
“A maquinação é o acabamento incondicionado do ser como vontade de poder. Mas mesmo a maquinação como essência do ser tem ainda um inessência.
A inessência da maquinação exige uma humanidade que não desertifique toda tradição, mas propague para além da desertificação, isto é, para o interior de sua inessência, justamente uma tradição desertificada da metafísica (e, isto é, da história ocidental), essencialmente sem raízes. Esta instauração da inessência da maquinação está reservada ao americanismo.
Mais tenebroso do que toda e qualquer selvageria asiática é esta ‘moralidade’ desenraizada e alastrada até o engodo incondicionado.
Somente aqui o abandono do ser alcança a condição extrema de uma constância.
Será que reconhecemos suficientemente que tudo o que há de tenebroso reside no americanismo e de modo algum no mundo russo? ”. (Heidegger: 157).

Heidegger compara a América com o totalitarismo russo. O americanismo é o caminho dos Estados Unidos para fora da história ocidental. O caminho para fora do Ocidental e Heidegger o vivenciou no totalitarismo fascista alemão; o totalitarismo americano (pois, se trata de comparar realidades gramaticais totalitárias) é desprovido de metafísica, e, portanto, é uma “moralidade” sem raízes metafísicas e propagada como um artifício, uma isca, para atrair e enganar, simular, dissimular, sugestionar, mentir, manipular incondicionalmente.

Não há como pensar o surgimento da nefasta elite do poder (Wright Mills) sem a grande indústria cultural de massa. Elite do poder significa uma elite industrial que usa a violência industrializada gramatical (cultura de massa) ou real (Guerra internacional, guerra civil racial, guerra civil sexual (mulher versus homem) sem limite:
“Nenhuma classe dominante fixa, baseada na vida agrária e florescendo na glória militar poderia deter na América o impulso histórico do comércio e da indústria, ou subordinar a si a elite capitalista – como os capitalistas se subordinaram, por exemplo, na Alemanha e no Japão. Nem poderia semelhante classe, em parte alguma do mundo, conter os capitalistas dos Estados Unidos, quando a violência industrializada (grifo meu) passou a decidir a história. Basta ver a sorte da Alemanha e do Japão nas duas guerras mundiais do século XX – e também a da própria Grã-Bretanha e sua classe dominante modelar, quando Nova York tornou-se a capital econômica inevitável, e Washington a capital política do mundo capitalista”. (Mills: 22).   

O totalitarismo americano industrializado ou americanismo é o avesso da democracia da civilização ocidental; ele é homólogo à via prussiana que levou a Alemanha ao nazismo (Lukács: 41). O totalitarismo alemão foi um efeito, em parte da via industrial prussiana. A violência da técnica industrial via prussiana pesa como chumbo no cérebro do americano do americanismo. Há porém a via prussiana da América Latina

Norbert Elias descreveu a associação da via prussiana com a embriaguez mitológica da hegemonia (febre de hegemonia na política mundial) e como perda de sentido gramatical da realidade dos fatos política. (Elias: 41). Elias viu na tradição gramatical da via prussiana da técnica industrial alemão nazista um passado que Marcuse (e W. Mills) vê se articular na América, na década de 1960:
“Além disso, o que, na nossa memória, torna o nacional-socialismo, ainda hoje, tão intolerável não é simplesmente a brutalidade dos seus representantes. Brutalidades de toda a espécie são, no nosso mundo, uma coisa trivial. O que ainda hoje assusta é, por um lado, a edificação minuciosa, quase racional ou realista, de uma grande organização e da utilização de tecnologias científicas e, simultaneamente, a neutralização e a anulação radicais da consciência face ao sofrimento e à morte de milhões de homens, mulheres e crianças – de seres humanos que não representavam qualquer perigo para o grupo dominante, que não possuíam quaisquer armas e que foram chacinados pior do que reses num matadouro, de uma maneira abominável”. (Elias: 49).

A guerra civil racial do americanismo liga-se, de algum modo, a ideia de guerra civil racial bio-histórica nacional-socialista? Os arianos americanos não são sucedâneos (no plano das ideologias políticas como manifestação organizada e sistematizada da cultura política gramatical) dos arianos germânicos? :
“Os indivíduos de raça germânica eram chamados pela natureza e ´pela história a constituir um escol de senhores, uma espécie de aristocracia da humanidade. As outras raças, sobretudo Judeus e os Negros, eram inferiores e, por isso, inimigos naturais. O melhor seria exterminá-los”. (Elias: 49). 
   
                                                                                        II
Há toda uma literatura sociológica que fala de países desenvolvidos convivendo com o subdesenvolvimento em seu próprio território. Virou modo no jornalismo brasileiro dizer, corriqueiramente, que países da Escandinávia escapam a tal classificação. Aí neste território europeu não-industrial a civilização ocidental mantém seu caráter de países puramente desenvolvidos, países não assolados pela peste do terceiro mundo. Quanto aos EUA, França, Inglaterra e Alemanha temos países desenvolvidos com subdesenvolvimento. Trata-se de uma regressão na civilização europeia democrática e capitalista tout court.

A regressão é um modo negativo de falar do acontecimento em tela; o modo positivo é dizer que se trata da via prussiana americana. Há vestígios na literatura sociológica ou filosófica sobre o passado da Prússia Americana?

Na década de 1960, Herbert Marcuse registrou a regressão da civilização americana democrática a uma espécie de totalitarismo industrial do americanismo heideggeriano. Ele viu no domínio da técnica industrial americana o motor da articulação de uma sociedade gramatical de significantes prussiano totalitária:
“A análise é focalizada na sociedade industrial desenvolvida, na qual o aparato técnico de produção e distribuição (com um crescente setor de automação) não funciona como a soma total de meros instrumentos que possam ser isolados de seus efeitos sociais e políticos, mas, antes, como um sistema que determina, a priori, tanto o produto do aparato como as operações de sua manutenção e ampliação. Nessa sociedade, o aparato produtivo tende a tornar-se totalitário (grifo meu) no quanto determina não apenas as oscilações, habilidades e atitudes socialmente necessárias, mas também as necessidades e aspirações individuais. A tecnologia serve para instituir formas novas, mais eficazes e mais agradáveis de controle social e coesão social. A tendência totalitária (grifo meu) desses controles parece confirma-se ainda em outro sentido – disseminando-se pelas áreas menos desenvolvidas e até mesmo pré-industriais e criando similaridades no desenvolvimento do capitalismo e do comunismo”. (Marcuse: 18).

Desenvolvido na América, o totalitarismo da técnica industrial do americanismo tende a se tornar uma articulação da hegemonia da cultura política mundial com similaridades com o totalitarismo russo asiático da URSS. Revisitado o significante via prussiana, sua gramática em narrativa lógica não se refere mais a Alemanha nazista, e sim a totalidade da história da segunda metade do século XX, entrando no século XXI. Como a Inglaterra foi o objeto empírico-formal econômico de O capital, a França o objeto-formal da política do século XIX (O 18 Brumário de Luís Bonaparte) e Paris a capital cultural do século XIX (Benjamin: 35-37), a América é o objeto gramatical do totalitarismo do século XX e XXI.

O totalitarismo do americanismo é um acontecimento do campo simbólico-gramatical da linguagem
“Esse tipo de bem-estar, a superestrutura produtiva sobre a base infeliz da sociedade, penetra o ‘meio’ que medeia entre senhores e seus dependentes. Seus agentes de publicidade moldam o universo da comunicação no qual o comportamento unidimensional se expressa. Sua linguagem testemunha a identificação e a unificação, a produção sistemática de pensamento e ação positivos, o ataque concertado às noções transcendentes e críticas. Nas formas predominantes da palavra, o contraste aparece entre os modos de pensar dialéticos bidimensionais e o comportamento tecnológico ou ‘hábitos de pensar’ sociais.

Na expressão desses hábitos de pensar, a tensão entre aparência e realidade, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e imitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem. A locução é privada das mediações que são as etapas do processo de cognição e avaliação cognitiva. Os conceitos que compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes, estão perdendo sua representação linguística autêntica. Sem tais mediações, a linguagem tende a expressar e a promover a identificação imediata da razão e do fato, da verdade e da verdade estabelecida, da essência e da existência, da coisa e da função”. (Marcuse: 93). 

Usando Lenin, Lacan fala de uma verdade verdadeira das massas, em um contraponto com a verdade do homem unidimensional. Este não é capaz de usar a interpretação para abordar a realidade dos fatos como verdade verdadeira:
“A interpretação não é submetida à prova de uma verdade que se decida por sim ou não, mas desencadeia a verdade como tal. Só é verdadeira na medida em que é verdadeiramente seguida”. (Lacan. 2009: 13).

Baudrillard retoma Marcuse na linguagem da sociologia do pós-modernismo:
“Par une opération circulare d’ajustement expérimental, d’interférence incessante, comme ceux d’influx nerveux, táctiles et retractiles, qui explorent un objet à force de brèves séquences perceptives, jusqu’à l’avoir localisé et contrôlé – ce qu’ils localisent ainsi et structurent, ce ne sont pas de groupes réels et autonomes, mais des échantillons, c’ets-à-dire socialement et mentalement modellisés par um feu de batteries de messages. L’ ˂opinion publique> est évidemment le plus beau de ces échantillons – non pas une substance politique irréelle, mais hyperréelle, l’hyperréalité fantastique qui ne vit que du montage et de la manipulation testuelle”. (Baudrillard. 1976: 99).             
Na linguagem totalitária da gramática em narrativa lógica da língua inglesa industrial, a problemática da aparência da semblância e realidade dos fatos é obnubilada, obliterada. A coisa em si kantiana é foracluída da alta cultura dos campos de saber do americanismo. A problemática gramatical crucial da diferença entre fato e artefato (Lacan. 2009: 9-21) é subtraída na ciência política e na sociologia do americanismo. A verdade é abandonada na lata de lixo da cultura do simulacro de simulação (Baudrillard. 1981: 177). A verdade não é o verdadeiro para as massas sujeito grau zero sgrammaticatura.

O discurso do mestre cede seu lugar de poder gramatical civilizacional para o poder unidimensional articulado pela violência simbólica da técnica industrial:
“Se discurso do mestre constitui o lastro, a estrutura, o ponto forte em torno do qual se ordenam diversas civilizações, é porque seu motor, afinal, é de uma ordem muito diferente da violência”. (Lacan. 2009: 25)          

O povo americano fala um inglês macarrônico, industrializado, tecnificado pela cultura de massa (e a publicidade), e não domina, minimamente, a gramática inglesa falada na América. O canadense Marshall MacLuhan trata diretamente deste problema:
“É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada, pois ninguém aí jamais ouviu falar de algum. A diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correto. Do mesmo modo, a paixão pela reforma da ortografia, no século dezesseis, nasceu de novo esforço por conciliar a vista e o som”. (MacLuhan: 323).

A passagem para a sociedade de consumo visual de mercadorias é a mola propulsora do divórcio entre o americano e sua gramática inglesa. No entanto, a sociedade de consumo capitalista do americanismo persiste como uma máquina de guerra gramatical da via prussiana pelo uso industrial de sua violência no território trans-subjetivo econômico do mundo-da-vida americana:
“A propósito da juventude americana, Riesman refere-se a um estilo ˂Kwakutl> e um estilo ˂Pueblo>, mencionando assim os modelos culturais definidos por Margaret Mead. Os Kwakutl são violentos, agonísticos, competitivos e ricos, praticando o consumo desenfreado no ˂potlatch>. Os Pueblos são doces, benévolos, gentis, vivendo e contentando-se com pouco. Assim, a cultura actual pode definir-se pela oposição formal de uma cultura dominante – a de consumo desregrado, ritual e conforme – cultura violenta e concorrencial (o ˂potlatch> dos Kwakutl) e de uma subcultura laxista, eufórica e demissiva, dos hippies/Pueblos. Mas, tudo leva a crer que, assim como a violência depressa é reabsorvida em ˂modelos de violência>, assim também a contradição se resolve agora em coexistência funcional. O extremo da adesão e o extremo da recusa tocam-se, como no anel de Moebius, por simples torção. E os dois modelos, em última análise, desenvolvem-se em áreas concêntricas em redor do mesmo eixo da ordem social. John Stuart Mills exprimiu tal fenômeno em termos cruéis: ‘hoje em dia, o simples fato de dar exemplo de não-conformismo, a simples recusa de dobrar o joelho diante dos costumes, é já em si um serviço”. (Baudrillard.1981:224-225).

A trans-subjetividade do americanismo da via prussiana encontra-se realizada na cultura de massa:
“Da mesma maneira que a nova violência é ‘sem objeto’, também a fadiga é ‘sem causa’. Nada tem a ver com a fadiga muscular e energética. Não procede do desgaste físico. Fala-se, é certo, espontaneamente, de ‘desgaste nervoso’, de ‘depressividade’ e de conversão psicossomática. Este tipo de explicação faz parte da cultura de massas (mais precisamente da cultura de massa): aparece em todos os jornais (e em todos os congressos) ”. (Baudrillard. 1981: 225).   

Trata-se daquele uso industrial da linguagem do homem unidimensional, isto é, da trans-subjetividade gramatical da via prussiana do americanismo que, no século XXI, se mantem usual através da indústria farmacêutica-psiquiátrica e das clínicas que são uma mistura insana de manicômio com hospital psiquiátrico, alguns usando a psiquiatria fascista parisiense lacaniana na América Latina. No Rio e São Paulo elas podem ser usadas pela Okhrana (envolvendo a família) para fazer internação involuntária de intelectuais considerados inimigos de poderes políticos como televisão, senado, governo estadual e governo federal.

A propósito, Paris não é mais lacaniana, mas um epifenômeno da indústria farmacêutica-psiquiátrica da Prússia Americana.           
                                                                                            III

A questão do Estado era discutida como estando associada à identidade nacional e à consciência nacional:
“Por conseguinte, também o sentimento de identidade nacional, a consciência do valor próprio dos Alemães, muito particularmente na República Federal, são mais vacilantes, mais inseguros, numa palavra, mais problemáticos do que na maioria dos outros Estados europeus. Os Dinamarqueses, os Franceses, os Ingleses, apesar da perda de poder e status que sofreram todos os países europeus, ainda não têm, actualmente, grandes dificuldades com a sua identidade nacional. Os Alemães, e principalmente os alemães federais, têm dificuldades consideráveis. Não se fala muito disso, em parte, porque, devido à consciência nacional convulsivamente exagerada do Terceiro Reich, quaisquer tentativas dos Alemães para falarem publicamente da sua consciência nacional levanta a suspeita de que se estará a querer reviver a exagerada consciência nacional do Terceiro Reich”. (Elias: 55).

A questão do Estado fez a passagem para a via prussiana do americanismo com a alteração no conceito londrino de Estado sociológico:
“Todas as organizações têm perfis políticos, mas apenas no caso do Estado é que envolve a consolidação de um poder militar em associação ao controle dos meios de violência dentro de uma extensão territorial. Um Estado pode ser definido como uma organização política cujo domínio é territorialmente organizado e capaz de acionar os meios de violência para sustentar esse domínio. Tal definição é próxima daquela de Weber, mas não destaca uma reivindicação ao monopólio dos meios de violência ou o fator de legitimidade”. (Giddens: 45).

O Estado nacional se reparte em dois quanto ao usa da violência, ou real, ou simbólica, ou gramatical. O Estado torna-se o duplo Estado; um Estado constitucional, Estado legal; um Estado sem controle da Constituição, um Estado ilegal. A política mundial é governo constitucional do visível e governo inconstitucional do invisível; a classe política torna-se - por efeito da realidade política supracitada uma organização política sociológica, gramaticalmente, criminosa.

O Estado inconstitucional é o Criminostat (Virilio: 54-55). Foucault pensa o criminostat em junção com o capitalismo fictício e o campo de poderes gramaticais do governo do invisível. As ciências gramaticais da política englobam as transformações vistas por Paul Virilio e Foucault na ideia de Prússia Gramatical Americana.

Foucault diz:
“Podemos, ao contrário, situar os dois processos que na própria continuidade dos processos que a fizeram funcionar são capazes de restringir consideravelmente seu uso e transformar seu funcionamento interno. E eles já foram sem dúvida iniciados em grande escala. Um é o que diminui a utilidade (ou faz aumentar as desvantagens) de uma delinquência organizada como uma ilegalidade específica, fechada e controlada; assim, com a constituição em escala ou internacional de grandes ilegalidades ligadas aos aparelhos políticos e  econômicos (ilegalidades financeiras, serviços de informação, tráfico de armas, e de droga, especulações imobiliárias), é evidente que a mão-de-obra um pouco rústica e manifesta da delinquência se mostra ineficiente: ou ainda, em escala mais restrita, a hierarquia arcaica da prostituição perde grande parte de sua antiga utilidade, desde o momento em que previsões econômicas sobre o prazer sexual foram feitos de modo muito melhor pela venda de anticoncepcionais, ou através de publicações, filmes e espetáculos. O outro processo é o crescimento das redes disciplinares, a multiplicação de seus intercâmbios com o aparelho penal, os poderes cada vez mais amplos que lhe são dados, a transferência para eles cada vez cada vez maior de funções judiciárias; ora, à medida que a medicina, a psicologia, a educação, a assistência, o ‘trabalho social’ tomam parte maior nos poderes de controle e de sanção, em compensação o aparelho penal poderá se medicalizar, se psicologizar, se pedagogizar; e desse modo tornar-se menos útil a ligação que a prisão constituía quando, pela defasagem entre seu discurso penitenciário e seu efeito de consolidação da delinquência, ela articulava o poder penal e o poder disciplinar. No meio de todos esses dispositivos de normalização que se densificam, a especificidade da prisão e seu papel de junção perdem parte de sua razão de ser”. (Foucault: 267-268).

A visão do futuro de Foucault se realizou no século XXI ou como fantasia lacaniana do futuro, ou então, como profecia racional weberiana. (Weber: 316),          

A delinquência dos de cima (classe dominante e classe política) e a delinquência dos de baixo compõem as tropas do Criminostat e da Okhrana (sistema de vigilância, espionagem assédio, captura, tortura, das polícias secretas) expandindo permanentemente no planeta a articulação da hegemonia e dominação da lumpenburguesia e do lumpencapitalismo da ditadura mundial do capital fictício.
Trata-se da ditadura mundial da oligarquia financeira (capital fictício). Temos um salto do domínio da indústria (D-M-D’) para a fórmula capitalista fictícia D-D’. A primeira denota a articulação da hegemonia do capitalismo industrial no domínio da política planetária; a segunda significa a dominação do capital fictício caracterizando uma economia mundial prussiana gramaticalizável do americanismo

Marx viu o domínio do capital fictício como o domínio do fetichismo do dinheiro (aura sacra fames) no capitalismo mundial. Tal gramático dá a explicação, do método da economia política gramatical, para a expansão da corrupção em escala ciclópica no planeta:
“Avec le capital porteur d’intérêt, le rapport capitaliste atteint sa forme la plus extérieur, la plus fétichisée. Nous avons ici A-A’, de le argent produisant de l’argent, une valeur se mettant en valeur elle-même, sans aucun procés qui serve de médiation aux deux extremes. Pour le capital marchand, nous avons au moins la forme générale du moviment capitaliste: A-M-A’, bien qu’il reste confiné à l’interieur de la sphère de circulation et que le profit apparaisse donc comme le simple résultat d’une aliénation”. (Marx. 1977 :362).

A via prussiana do capitalismo ocidental se reflete na transformação do trans-sujeito capital industrial como soberano na Terra. Trata-se, também, da transição do inconsciente freudiano para o inconsciente lacaniano ou LALANGUE. 

Temos a passagem: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem, eu não disse pela”. (Lacan. 2003: 490; 1975: 126)) para lalangue:
“Vous voyez qu’à conserver encore ce comme, je m’en tiens à l’ordre de ce que j’avance quand je dis que l’inconscient est structuré comme un langage. Je dis comme pour ne pas dire, j’y reviens toujours, que l’inconscient est structuré par un langage. L’inconscient est structuré comme les assemblages dont s’agit dans la théorie des ensembles sont, comme des lettres. (Lacan. 1975: 46-47).       

Lalangue é o inconsciente da via prussiana mundial do ocidente do século XXI. Há toda uma transformação na linguagem mais radical que significa o desaparecimento dela como tal: os americanos não sabem a gramática do inglês. Lacan diz com todas as letras:
“Si j’ai dit le langage est ce comme quoi l’inconscient est structuré, c’est bien parce que le langage, d’abord, ça n’existe pas. Le langage est ce qu’on essaye de savoir concernent la fonction de lalangue”. (Lacan. 1975: 126).

A transformação diz que lalangue ocupa o lugar da gramática e do gramático na articulação da hegemonia da política mundial? Lacan diz:
“Changement de discours – ça bouge, ça vous, ça nous, ça se traverse, personne n’accuse le coup. J’ai beau dire que cette notion de discours est à prendre comme lien social, fondé sur le langage, et semble donc n’être pas sans rapport avec ce qui dans la linguistique se spécifie comme grammaire, rien ne semble s’en modifier”. (Lacan. 1975: 21).

Lalangue é a matematização que invade o real compatível com o discurso analítico. O discurso analítico faz pendant com a gramática em narrativa lógica do domínio do real do capital fictício no planeta:
“La mathématisation seule atteint à un réel – et c’est en quoi elle est compatible avec notre discours, le discours analytique – un réel qui n’a rien à faire avec ce que la connaissance traditionnelle a supporté, et qui n’est pas ce qu’elle croit, réalité, mais bien fantasme.
Le réel, dirait-je, c’ets le mystère du corps parlant, c’est le mystère de l’inconscient”. (Lacan. 1975: 118).

Tal invasão produz efeitos na relação do discurso com o sujeito gramatical, em geral. O sujeito da via prussiana do capitalismo mundial fictício é superdeterminado pela ditadura mundial do capital fictício. O sujeito deixa de possuir a autonomia relativa necessária para a persistência no ser do real da sociedade democrática. É claro que tal acontecimento se faz no domínio das lutas de classes no Ocidente. Pelas lutas de classes, o gramático rethor percipio tenta resgatar a autonomia relativa do sujeito gramatical como lutas de classes na narrativa nacional, internacional e mundial.

Lalangue se traduz por um discurso do político no qual o sujeito é um epifenômeno do significante lacaniano:
“O que justifica essa regra é que, precisamente, a verdade não é dita por um sujeito, mas suportada”. (Lacan. 2008: 67).  

A soberania do significante matemático topológico é a invasão no território do trans-sujeito pelo fascismo lacaniano, pois:
“Mais de uma coisa no mundo é passível do efeito do significante. Tudo o que está no mundo só se torna fato, propriamente, quando com ele se articula o significante. Nunca, jamais surge o sujeito algum até que o fato seja dito. Temos que trabalhar entre essas duas fronteiras”. (Lacan. 2008: 65).

Para encerrar este enunciado, o sujeito lacaniano é um efeito do discurso como articulação no real de lalangue:
“O que enuncio do próprio sujeito como efeito do discurso”. (Lacan. 2008: 47).
                                                                                      IV

 O Kriminostat em associação com a Okhrana nasceu após a II Guerra Mundial por um agir político gramatical do Papa Pio XII, o Papa nazista. O Papa calculou que o PCI governaria a Itália. Então, fez uma coalizão do governo do invisível com a CIA, a máfia ítalo-americana, máfias italianas para governar a Itália. O uso da violência real simbólica e gramatical (RSG) está na origem do nascimento do Estado do governo do invisível. Percebam que o governo do invisível incluiu uma junção do campo científico (psicologia, não toda, psiquiatria, inclusive a psiquiatria fascista lacaniana em associação com a indústria farmacêutica) com o capitalismo do capital fictício.

 A propósito, na Prússia Topológica Americana lacaniana, a realidade dos fatos permanece subjugada à fantasia transformando a realidade objetiva em aparência da semblância:
A ce titre, comme l’indique ailleurs dans mes graphes la conjonction pointée de ce $ et de ce a, ce n’est rien d’autre que fantasme. Ce fantasme où est pris le sujet, c’est comme tel le support de ce qu’on appelle expressément dans la théorie freudienne le principe de réalité”. (Lacan. 1975: 75). 

Há muito que desenvolver sobre o domínio matemático-topológico digital do capital fictício. Assim espero!

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1981
------------------------    L’échange symbolique et la mort. Paris: Gallimard, 1976
-----------------------      Simulacres et simulation. Paris: Galilée, 1981
BENJAMIM, Walter. Paris. Capitale du XIX siécle. Paris: Les Éditions du Cerf, 1989
ELIAS, Norbert. A condição humana. RJ: Difel, 1991
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1977
GIDDENS, Anthony. O Estado-nação e a violência. SP: EDUSP, 2001
HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e niilismo. RJ: Relume Dumará, 2000
LACAN. Jaques. Le Seminaire. Livre XX. Encore. Paris: Seul, 1975
-------------------  Outros Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor, 2003
------------------    O Seminário. De um Outro ao outro. Livro 16. Paris: Zahar, 2008
------------------------------------    De um discurso que não fosse semblante. Livro 18. Paris: Zahar, 2009
LUKÁCS, Georg. El asalto a la razon. Barcelona: Grijalbo, 1972
MACLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg. SP: Companhia Editora Nacional, 1972
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. O homem unidimensional. RJ: Zahar Editores, 1973
MARX, Karl. Le capital. Livre troisième. Texte integral. Paris: Éditions Sociales, 1977
MILLS, C. Wright. A elite do poder. RJ: Zahar Editores, 1975
WEBER, Max. História geral da economia. SP: Mestre JOU, 1968
VIRILO, Paul. Vitesse et politique. Paris: Galilée, 1977

   

    
         


 






domingo, 3 de dezembro de 2017

GRAMÁTICO DA POLÍTICA DO PRESENTE


        José Paulo                                                                       I


A PUBLICAÇÃO DESTE TEXTO NOS GRUPOS DO FACEBOOK PROVOCOU A MINHA SUSPENSÃO; NÃO POSSO PUBLICAR, INCLUSIVE, NAS MINHAS PÁGINAS ATÉ O DIA 10/12/2017.

A Editora Companhia das Letras tem como dono real o banqueiro ilustrado João Moreira Sales. Ele também é o dono da revista Piauí. As pessoas que publicam na Companhia das Letras (e os jornalistas e publicistas que escrevem para a Piauí) se alinham (sem saber que sabem) ao quadro global das linhas de força gramaticais da cultura política do presente 2018.

A Companhia publica o discurso da universidade (Lacan) brasileira. Ela tem como objetivo assegurar o monopólio da interpretação do Brasil. Pasmem! O discurso universitário ignora a existência das ciências gramaticais da política, único campo de pesquisa científico R.S.I (Real/Simbólico/Imaginário) criado na América Latina.

O discurso universitário se caracteriza por não ter um gramático e não trabalhar com as gramáticas dos discursos e da realidade dos fatos. Trata-se, portanto, de um discurso universitário ingênuo, infantil no campo da episteme onde um RHETOR PERCIPIO gramatical escreve a partir da colheita de significantes e sujeitos gramaticais na hipertextualidade da sociedade.

A quem serve a interpretação do Brasil da Companhia de João (CJ)?

A grande política é lutas de classes na narrativa nacional, internacional e um mundial. A Interpretação do Brasil de CJ serve à sociedade do rico burguês carioca e paulista. Tal sociedade é um dispositivo interpretativo da nossa política visando taticamente, em 2018, a invasão do país pela ditadura mundial do capital fictício ou oligarquia financeira mundial. Trata-se da via prussiana da política que consiste na via pelo alto da revolução burguesa, revolução sem revolução, república sem republicanos, democracia sem democratas.

A característica central da via prussiana é a seguinte: a revolução burguesa pelo alto significa uma revolução na qual as massas estão distraídas; a via prussiana tem como sentido gramatical a foraclusão das massas gramaticais da política nacional. A via prussiana é um significante gramatical de Lenin gramaticalizado conceitualmente por Lukács:
“No en vano Lenin señala este camino como típico desde el punto de vista internacional, como un camino desfavorable para el nacimento de la sociedade burguesa; como el camino ‘prusiano’, así lo llama él. Y este pronunciamiento de Lenin no debe entenderse referido solamente a la cuestión agraria en sentido estricto, sino que se extiende a todo el dessarrollo del capitalismo y a la supraestructura política que presenta en la moderna sociedad burguesa de Alemania”. (Lukács: 41).  

Entre nós, a via prussiana é o caminho que evita o capitalismo gramatical e a sociedade burguesa gramatical. Ela é o avesso da revolução democrático-burguesa de massas sujeito gramatical grau zero da barbárie política do subcapitalismo dependente e associado. A Companhia das Letras é o caminho da linguagem e interpretação da via prussiana, no lado direito da banda de Moebius, que tem no lado anverso as ciências gramaticais da política. Tal Banda explica por que o discurso universitário prussiano ignora o gramático e as gramáticas das ciências gramaticais da política. Em outra oportunidade mostrarei em detalhes a ligação do discurso CJ com a via prussiana.

Os textos de CJ não são úteis para o assunto em tela: as revoluções democrático-burguesa no Brasil. Então, me sirvo da literatura clássica básica para iniciar minha abordagem do tema em tela gramatical.
                                                                             II

O significante revolução adquire força de lei gramatical histórica ocidental com a Revolução americana e a Revolução francesa. Tais revoluções burguesa-democráticas se caracterizaram por criar, respectivamente, linguagens políticas da sociedade de significantes burguês-democrático.

Através de seus gramáticos, elas criaram as gramáticas da revolução democrática da modernidade.

No Brasil, o sujeito gramatical revolução surge como vontade de potência de uma revolução descolonizadora de proprietários, clérigos, doutores brasileiros de Coimbra, gente formada por jovens pobre de pardos, negros e brancos pobres e Tiradentes.  Tal acontecimento é conhecido como Inconfidência Mineira (1789), Inconfidência carioca (1794), Inconfidência Baiana (1798) e a Inconfidência Pernambucana (1801).

O caracteriza a revolução descolonizadora é a ausência do gramático e, portanto, a falta de gramática do acontecimento. O historiador Carlos Guilherme Mota fala em usos de palavras como “rico” e “pobre”, “revolução” e “república” pelos inconfidentes, principalmente em Minas Gerais e Bahia (Mota: 21, 42). No entanto, uma linguagem política revolucionária descolonizadora só aparece como pobre realidade latente dos modos de pensar e de se expressar dos inconfidentes.

Autor da esquerda brasileira senhorial, Manoel Bomfim, em 1931, discute o sujeito gramatical revolução brasileira moderna. No campo das ciências sociais, a discussão gramatical da modernidade do significante revolução brasileira não começa no Raízes do Brasil (1936).

Bomfim fala de uma transdialética república liberal-democrática versus absolutismo bragantino no período que vai de 1922 a 1831. Em 1831, d. Pedro I é afastado do poder por uma revolução sem lutar. Ele transigiu com a revolução e se exilou voluntariamente, partindo para a Europa. Para Bomfim, a revolução republicana foi frustrada com a regência que preparou o Império bragantino no qual o absolutismo sobrevive com o poder moderador de d. Pedro I. Trata-se de um poder pessoal acima dos outros poderes constitucionais. D. Pedro II governou com a Constituição absolutista bragantina outorgada pelo filho em 1824, após o golpe de Estado na Assembleia Nacional Constituinte 1823.

Em 1822, surgiu a posição de partido republicana. Cipriano Barata é a personagem mais consistente na ideologia e no agir político desta corrente de pensamento político (Nabuco: 120-121). A interpretação do monarquista Joaquim Nabuco difere de Bomfim. A revolução republicana de 1831 contra o absolutismo bragantino não foi uma revolução frustrada, pois, a forma de governo instaurada é uma forma republicana:
“No Brasil, porém, a Regência foi a república de fato, a república provisória”. (Nabuco: 66).

Em uma citação mais longa:
“De 1831 a 1840 (até mais tarde mesmo, poder-se-ia dizer, porque o imperador a tomar conta do trono era um menino e não uma individualidade capaz, de defender uma instituição), de 1831 a 1840 a República foi experimentada em nosso país nas condições mais favoráveis em que a experiência podia ser feita”. (Nabuco: 66).  

Notável historiador da investigação do século XIX, Octávio Tarquínio de Sousa também pensa como Nabuco:
“E a Regência foi, como afirmou Joaquim Nabuco, uma experiência republicana, uma república provisória”. (Sousa: 109).

Nosso primeiro autor ao tratar política do século XIX como efeito das lutas de classes, em 1931, Caio Prado Júnior vê o 7 de abril de 1931 assim:
“De um lado estão as classes abastadas, principalmente os grandes proprietários de rurais, que, conduzem a oposição a D. Pedro e encaminham a revolta de abril; de outro, as classes populares, de que as primeiras se servem para a realização de seus fins, e que – são elas principalmente que o fazem – saem à rua a 7 de abril para deporem o Imperador”. (Prado Jr. Sem Data: 59).

Caio Prado interpreta a história da Regência sem abrir um debate aberto e franco com Joaquim Nabuco. Evitando a ideia da Regência como República, Caio diz:
“Congregam-se as massas em torno de individualidades mais ou menos salientes – caráter comum a todas as lutas políticas às quais faltam sólidas bases ideológicas – e a ação revolucionária é dispendiosa em dissenções intestinas e hostilidades entre chefes, que afinal não sabem ao certo o que fazer”. (Prado Jr. sem data: 61).

O ministro da justiça Padre Feijó interpretou a revolução de 1831 como anarquia popular. Caio prefere esta interpretação à de Nabuco:
"Sem o querer, talvez, caracterizava bem o ministro da justiça neste documento as classes em luta. De um lado proprietários e industriais que representavam bens. De outro os ‘anarquistas’, isto é, o povo em luta por suas reivindicações, pela melhoria de suas condições de vida”. (Pardo Jr. sem data: 63).

Em Caio, a Regência não é abordada como um artefato da cultura política. Ela não tem forma de governo; ela não é uma totalidade política; ela é simplesmente um período de anarquia aberta que se instalou no país como efeito das lutas de classes. Caio é incapaz de admitir que as lutas de classes produziram uma forma de governo na transdialética ocidental tropicalista república versus absolutismo bragantino.

Caio Prado fala de república local e não admite a república carioca no coração do país:
“Pela segunda vez, estavam os cabanos senhores do Pará. Proclamaram a República e declararam a província desligada do Império”. (Idem: 68).

Há um período insurrecional nas províncias interpretado pelas lutas de classes:
“Na origem deste levante, vamos encontrar as mesmas causas que indicamos para as demais insurreições da época: a luta das classes medias, especialmente urbana, contra a política aristocrática e oligárquica das classes abastadas, grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantara no país. Este elemento democrático radical era no Maranhão conhecido pelo nome de Bem-te-vi – do jornal O Bem-te-vi – sustentava suas ideias na capital da província”. (Idem: 71).

No Rio, a revolução democrática sem gramático e gramática ideológica não é republicana. Ela existiu, mas foi, finalmente, sufocada em 1846:
“Enquanto isto, o que não fora da democracia esmagada pelas armas, sufoca-o a reforma eleitoral de 1846. Essa lei, sob pretexto da desvalorização da moeda desde a época em que se promulgara a Constituição do Império, passou a calcular o censo eleitoral na base metálica, elevando por este artifício ao dobro do antigamente exigido o mínimo de renda para o exercício dos direitos políticos.
E assim entramos na segunda metade do século passado. As massas populares, mantidas numa sujeição completa por leis e instituições opressivas, passam para um segundo plano, substituindo pela passividade sua intensa vida política dos anos anteriores. Pode assim a grande burguesia indígena entregar-se ao plácido usufruto da nação. Daí por diante, as lutas são no seu seio. É dentro dela que vamos encontrar os germes da discórdia, e será a luta destas tendências opostas de grupo burgueses que constituirá a história política da segunda metade do século passado”. (Idem: 79).

Caio fala em burguesia (como classe social) na primeira metade do século XIX, coisa que Nelson Werneck Sodré desautoriza!

                                                                                             III

Na década de 1960, alguns intelectuais se debruçam no problema da revolução na atmosfera da tela gramatical da democracia populista. Em 1963, publica-se o Mito e verdade da revolução brasileira, de Guerreiro Ramos  

O livro Raízes do Brasil dominou a cena da nossa alta cultura com seu conceito de revolução:
“Se a Data da Abolição marca no Brasil o fim do predomínio agrário, o quadro político instituído no seguinte quer responder à conveniência de uma forma adequada à nova composição social. Existe um elo secreto entre dois acontecimentos e numerosos outros uma revolução lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente, temos experimentado em toda a nossa vida nacional. Processa-se, é certo, sem grande alarde de algumas convulsões de superfície, que os historiadores exageram frequentemente em seu zelo, minucioso e fácil, de compendiar as transformações exteriores da existência dos povos. Perto dessa revolução, a maioria de nossas agitações do período republicano, como as suas similares das nações da América Espanhola, parecem simples desvios de trajetórias da vida política legal do Estado, comparáveis a essas antigas ‘revoluções palacianas’, tão familiares aos conhecedores da história europeia”. (Holanda: 126).

No Brasil, iberismo e agrarismo se confundem, e a revolução brasileira é a passagem da política ibérica agrária para a política urbana na grande política temporalmente extensa. Passagem do iberismo agrário para uma cultura política urbana:
“Em verdade podemos considerar dois movimentos simultâneos e convergentes através de toda a nossa evolução histórica: uma tendência a dilatar a ação das comunidades urbanas e outro que restringe a influência dos centros rurais transformados, ao cabo, em simples fontes abastecedora, em colônias das cidades. Se fatores especiais favorecem o primeiro desses movimentos, não há dúvida que ele só se acentuou definitivamente com a perda da resistência do agrarismo, antes soberano, e, depois, com o definhamento das condições que estimularam a formação entre nós de uma aristocracia rural poderosa e de organizações não-urbanas dotadas de economia autônoma”. (Holanda: 128).

Há a passagem geoeconômica do domínio do Rio, capital do Império, para São Paulo. O Rio continuou como capital política da República, mas São Paulo torna-se a economia soberana:
“ O resultado é que o domínio agrário deixa, aos poucos, de ser uma baronia, para se aproximar, em muitos de seus aspectos, de um centro de exploração industrial”. (Idem: 130). A fazenda de café tornar-se a mola propulsora da revolução urbana transferindo para a indústria paulista parte de sua renda excedente.

Na revisão da linha gramatical interpretativa de Sérgio Buarque, o marxista althusseriano Décio Saes fala sobre a formação do Estado burguês no Brasil no período 1888-1891. Este Estado não é o efeito de uma revolução violenta contra a ordem absolutista bragantina escravagista. Trata-se de uma passagem pacífica que Saes chama de revolução política burguesa alinhada com a revolução burguesa no sentido amplo; seria melhor dizer revolução capitalista:
“Tal classe não se constituiu, portanto, na força dirigente do processo de transformação burguesa do Estado brasileiro; mais ainda, foi a classe derrotada nesse processo de transformação superestrutural (revolução política burguesa), embora essa derrota política não tenha impedido a sua vitória relativa (isto é, sua transformação em proprietários fundiários não-escravistas, e não sua total desapropriação) no processo geral da passagem ao capitalismo (revolução burguesa num sentido amplo) ”. (Saes: 197).  

A propósito, a revolução política burguesa de Saes é um ersatz de revolução e o capitalismo paulista é um ersatz de capitalismo (capitalismo sem capitalismo), um subcapitalimo. Como lutas de classes na narrativa nacional, os efeitos sobre a grande política só se tornam inteligível a partir de efeitos do subcapitalismo. Isto explica porque a capital política da República continuou sendo o Rio, ou seja, não se transmutou para São Paulo. Uma revolução capitalista tout court teria transferido a capital política para a cidade gramatical revolucionária São Paulo. 

Antes de Décio Saes rever Sérgio Buarque, o sociólogo do trabalhismo varguista Guerreiro Ramos estabeleceu um conceito de revolução a partir do blanquismo, Marx, Engels e Lenin:
“revolução é o movimento, subjetivo e objetivo, em que uma classe ou coalizão de classes, em nome dos interesses gerais, segundo as possibilidades concretas de cada momento, modifica ou suprime a situação presente, determinando mudança de atitude no exercício do poder pelos atuais titulares e/ou impondo o advento de novos mandatários”. (Ramos: 30).

A revolução ocorre em uma conjuntura gramatical, ela não é um efeito da história longa; ela é uma coisa do presente, que subverte a gramatica do poder de um país. Não se trata apenas de uma troca de guarda entre elites políticas. Trata-se de uma demolição carioca, no plano da teoria, do conceito historiográfico uspiano, paulista, de Sérgio Buarque de Holanda.  Guerreiro Ramos era o gramático da sociologia do ISEB, uma instituição privada científica, no campo das ciências sociais, que retirou do PCB a articulação da gramática hegemônica da cultura política nacional. De quebra, ele se antecipou à luta da sociologia as USP pela hegemonia na política e na universidade, desautorizando o gramático da revolução burguesa paulista, o sr. Sérgio.

A resposta, oblíqua, a Guerreiro Ramos apareceu em 1966 com o livro de Caio Prado A revolução brasileira.

A crítica de Caio Prado ao marxismo-leninismo do PCB se baseia no seguinte: 
“a teoria marxista da revolução se elaborou sob o signo de abstrações, isso é, de conceitos formulados a priori e sem consideração adequada dos fatos; procurando-se posteriormente, e somente assim, - o que é mais grave – encaixar nesses conceitos a realidade concreta”. (Prado Jr. 1966: 19).

Caio (1966) plagiou Guerreiro (1963):
“O movimento emancipador do Brasil está ameaçado de grave desnaturação por duas debilidades que o cometem; uma de ordem cultural; outra de natureza organizacional. Vivem largamente os que pretendem liderá-lo de teorias de empréstimo e de ficções literárias e conceptuais, que não traduzem com o mínimo de exatidão requerida, as tendências concretas do processo brasileiro, em sua presente etapa”. (Ramos: 9).

Além do plágio descarado, Caio é um determinista e um homem que não consegue seguir seus próprios preceitos teoréticos. Para Caio, o destino final do Brasil é o socialismo (determinismo cientificista da pior espécie). E o capitalismo é um fenômeno universal virtual que tem as mesmas características em qualquer país do planeta. Caio foi incapaz de ver que o Brasil é um capitalismo sem capitalismo, um ersatz de capitalismo, um subcapitalismo:
“É claro que, para um marxista, é no socialismo que irá desembocar afinal a revolução brasileira. Para ele, o socialismo é a direção na qual marcha o capitalismo. É a dinâmica do capitalismo projetado no seu futuro. E seja qual for a feição particular em que o capitalismo se apresente em cada país da atualidade – feição ‘particular’, bem entendido, no que diz respeito a circunstâncias e elementos secundários que não excluem, e antes implicam a natureza essencialmente única do capitalismo, que é um só e o mesmo em toda parte – seja qual for o grau de desenvolvimento, extensão e maturação das relações capitalistas de produção, o certo é que o capitalismo se encontra na base e essência da economia contemporânea fora da esfera socialista; e nela se incluem, embora sob formas e modalidades várias, todos os países e povos além daquela esfera. Assim sendo, o socialismo, contrapartida que é do capitalismo em vias de desintegração numa escala mundial, é onde irá desembocar afinal, mais cedo ou mais tarde, a humanidade de hoje”. (Prado Jr. 1966: 6).
              
                                                              IV

Em sua luta pela articulação da hegemonia gramatical na alta cultura política, a sociologia da USP produziu os livros A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, e o Ciclo da revolução burguesa, de Octávio Ianni. São livros que fazem um diálogo e confronto com Nelson Werneck Sodré, do PCB e com o marxismo estruturalista.

Florestan faz da revolução burguesa um objeto gramatical da sociologia diferencial ou histórica, inspirado no Marx do O capital, ou seja, no método da economia política. Ele trabalha com a sociologia da longa duração para descobrir, com pretensão de rigor científico máximo, o que é uma sociedade de classes da periferia do capitalismo na era do capitalismo monopolista.
Florestan tece um conceito de revolução burguesa:
“NA ACEPÇÃO EM QUE TOMAMOS o conceito, Revolução Burguesa denota um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas, sociais, psicoculturais e políticas que só se realizam quando o desenvolvimento capitalista atinge o clímax de sua evolução industrial. Há, porém, um ponto de partida e um ponto de chegada, e é extremamente difícil localizar-se o momento em que essa revolução alcança um patamar histórico irreversível, de plena maturidade e, ao mesmo tempo, de consolidação do poder burguês e da dominação burguesa”. (Fernandes: 203).

O conceito de Revolução Burguesa em tela é sociologia científica ou sociologia ideológica? :
“A controvérsia e as controvérsias entram nessa interpretação pelas portas e pelas janelas; e não quis evitá-las, porque na absorção, na crítica e no expurgo do elemento ideológico estão a cerne do trabalho científico do sociólogo”. (Idem: 9).

O desenvolvimento da sociologia, das ciências sociais em geral e da historiografia não se pergunta se o capitalismo periférico é capitalismo tout court. Florestan fala em capitalismo periférico e não consegue ver que se trata de capitalismo sem capitalismo. No entanto, ele vê diferenças marcantes entre o capitalismo europeu e americano e o “capitalismo” brasileiro. Todavia, sua sociológica não cria uma linguagem científica da realidade dos fatos brasileiros; trata-se de uma linguagem ideológica altamente criativa, mas imaginária. Todos os sociólogos brasileiros e marxistas (e latino-americanos) tinham certeza de que o continente vivia a realidade capitalista como tal. O leitor pode consultar os livros mais avançados de sua época para se certificar de minha assertiva: Anotações sobre o capitalismo (1977), de Luiz Pereira; Estado capitalista e burocracia no Brasil pós-64 (1985), de Luciano Martins).

A propósito, sobre o conceito científico de Revolução Burguesa, a dimensão psicocultural é um grau zero freudiano; Florestan nada sabia do marxismo ocidental freudiano de Adorno ou do marxismo estruturalista freudiano de Althusser.

No entanto, Florestan deixou elementos para um debate sobre revolução burguesa, sociedade classes, lutas de classes, poder burguês e dominação burguesa na periferia do mundo capitalista ocidental.
As várias burguesias definem seus interesses comuns no domínio do comércio, e não no domínio das relações especificamente capitalistas de produção. Óbvio que isto significa a ausência da revolução industrial no Brasil (e América-Latina). Trata-se de um fato determinante na história da burguesia brasileira:
“É dessa debilidade que iria nascer o poder da burguesia, porque ela impôs, desde o início, que fosse no terreno político que se estabelecesse o pacto tácito (por vezes formalizado e explícito) de dominação de classe. Ao contrário de outras burguesias, que forjaram instituições próprias de poder especificamente social e só usaram o Estado para arranjos mais complicados e específicos, a nossa burguesia converge para o Estado e faz sua unificação no plano político, antes de converter a dominação socioeconômica no que Weber entendia como ‘poder político indireto’. (Fernandes: 204).

Em 1996, publiquei um ensaio longo sobre o Revolução Burguesa de Florestan, depois incluído no um livro Política brasileira em extensão: para além da sociedade civil. Me fixei na forma autocrática da burguesia:
“Entretanto, o Estado autocrático-burguês passa a enfrentar situações graves com a transição do capitalismo competitivo para o capitalismo monopolista. A transição choca-se com a debilidade genética da estrutura do poder burguês e, portanto, parece afetar o princípio lógico organizador da formação social brasileira. Três tipos de fatores explicariam a crise do poder burguês: o primeiro, derivado das pressões das estrutura e dinâmica do capitalismo monopolista internacional sobre o poder burguês; o segundo, derivado das pressões do proletariado e das massas populares sobre o poder burguês; o último associa as pressões sobre o poder burguês ao grau de intervenção direta do Estado na esfera econômica”. (Bandeira da Silveira: 28).

Na minha linguagem das ciências gramaticais da política, a autocracia-burguesa é a Via Prussiana gramatical em um antagonismo transdialético com revolução democrático-burguesa. Todavia, a via prussiana é um acontecimento lido de uma outra maneira em relação à autocracia-burguesa:
“A dominação burguesa, como mediação entre o Estado nacional e a divisão social do trabalho, possui, pelo menos, um duplo aspecto: primeiro, ela é força, poder e aparelho; segundo, ela é a estrutura que atua como relais da legitimidade do poder burguês. Neste contexto histórico-social, a dominação , a dominação burguesa não é só força socioeconômica espontânea ou uma força reguladora, já que ela polariza politicamente toda a rede de ações auto defensiva e repressiva percorrida pelas instituições articuladas ao poder burguês, da grande empresa monopolista aos aparelhos estatais, dando origem a uma espetacular superestrutura de vigilância, controle político e bloqueio, convertendo-se, por reatância, em uma fonte imaginária de poder político legítimo”. (Bandeira da Silveira: 34).  

A revolução burguesa democrática aconteceu nas lutas da coalizão classes contra o Estado autocrático, militar, fascista 1968. Trata-se de uma situação historial na qual a via prussiana da burguesia autocrática viveu o antagonismo transdialético com a revolução burguesa democrática dirigida por uma posição de partido de massas; nesta direção, o MDB foi o partido dirigente das massas sujeito gramatical grau zero autocrático. Depois, a via prussiana da era do bolivariano foi confrontada pelas lutas democrático-burguesa das massas 2013 sujeito gramatical grau zero bolivariano.

A tomada do poder burguês pelo PMDB-Temer retoma a via prussiana em um outro patamar, isto é, como um poder burguês dirigido pelo centro-direita como efeito da ditadura mundial do capital fictício (oligarquia financeira). Tal ditadura mundial se estabeleceu com o neoliberalismo da era do globalismo que tomou um impulso extraordinário na década de 1990. A diferença da situação histórica (estrutural) da década de 1970 para o século XXI pode ser lida, obliquamente, no meu texto da década de 1990, com a passagem da dominação do capital monopolista para o capital fictício:
 “O paradigma do Estado capitalista periférico de Fernandes, correspondente à fase de industrialização intensiva na transição para o capitalismo monopolista, em um sentido estrutural, emerge a partir da convergência de dois tipos de processo dialético: o primeiro, gerado diretamente pela lógica de classe, pela lógica que o bloco no poder impõe às classes subalternas (Gramsci); o segundo, gerado pela lógica política que a burguesia criou para lidar com as pressões oriundas dos Estados capitalistas ocidentais hegemônicos e com as pressões oriundas da internacionalização do sistema capitalista ocidental”. (Idem: 37).

Florestan não vivenciou, intelectualmente, a era da pós-modernidade. Na tentativa de fazer uma ligação gramatical entre a autocracia burguesa e a pós-modernidade, escrevi assim:
“A burguesia local, ao constituir-se como sujeito político para si, explicaria: a ausência de culpa política dela ao transforma-se em uma burguesia pró-imperialista; o uso do aparelho de Estado para sua unificação de classe segundo o modelo da cultura da guerra; o uso do Estado nacional como campo estratégico para a implantação do capitalismo monopolista mundial; a inversão histórica da lógica que gera e regenera a modernidade política, o econômico como fundamento lógico e ontológico da esfera política; a organização do poder estatal exclusivamente como poder burguês, bloqueando a emergência da modernidade política ocidental como espaço simbólico, modernidade que, na periferia ibérica do capitalismo, passa a existir como razão instrumental, simulação e simulacro”. (Bandeira da Silveira: 39).  

Toda a era do bolivariano não alterou, visivelmente na tela política gramatical, o paradigma do poder burguês e da dominação autocrática burguesa; o bolivariano é a era da via prussiana de massas do coronelismo do Nordeste em coalizão com o multiculturalismo (mulher e preto ou “negro”) sob a articulação da hegemonia abstrata da oligarquia financeira; na era Lula, o lucro dos bancos foi astronômico; Lula tinha como amigos íntimos banqueiros como os Joãos da família Moreira Sales. Trata-se da dimensão da dominação burguesa psicocultural de Florestan Fernandes.

Nas ciências gramaticais da política, a amizade de Lula com banqueiros da sociedade do rico burguês carioca/paulista é um problema freudiano. Viajando de pau-de-arara do Nordeste até São Paulo e vivendo uma humilde vida de operário da grande manufatura do capital monopolista, Lula usou as lutas sindicais como escada de ascensão social. Primeiro, ele se integrou a sociedade dos intelectuais paulistas com a criação do PT; depois no poder nacional de Brasília, ele viu a oportunidade de realizar seu desejo freudiano de ser rico, de pertencer a sociedade do rico burguês paulista ariano; Tal desejo freudiano foi a alavanca de um política petista, que estabeleceu uma confusão delirante de valor moral político gramatical, para as massas, entre o público e o privado burguês; Hoje, o poder judiciário luta para extrair Lula da sociedade do rico burguês paulista. Esta história biográfica gramatical ainda não encerrou suas portas.
                                                                                            V

Sociólogo da escola paulista da USP, Octávio Ianni também debateu o conceito e a prática da revolução burguesa brasileira. Seu interlocutor direto é o Revolução burguesa no Brasil:
“A problemática da revolução burguesa surge com especial ênfase quando a reflexão se concentra nas formas históricas do Estado brasileiro. Toda pesquisa se concentra sobre o poder estatal, em si e em suas relações com a sociedade, o cidadão, as raças e etnias, os regionalismos, os grupos sociais e as classes sociais, coloca e recoloca a persistência do caráter autoritário do poder estatal. Todas as formas históricas do Estado, desde a Independência até ao presente, denotam a continuidade e a reiteração das soluções autoritárias, de cima para baixo, pelo alto, organizando o Estado segundo os interesses oligárquicos, burgueses, imperialistas. O que se revela, ao longo da história, é o desenvolvimento de uma espécie de contrarrevolução burguesa permanente”. (Ianni: 11).

A contrarrevolução permanente da autocracia burguesa e o Estado autocrático burguês são sujeitos gramaticais de Florestan. (Fernandes: 356). A associação latente, inconsciente, do Estado autocrático com a via prussiana (reiterações das soluções autoritárias, de cima para baixo, pelo alto) abre uma porta para as ciências gramaticais da política. Ianni foi meu orientador de tese no mestrado e no doutorado.

Para Caio Prado, o reinado de d. Pedro II se define por uma política exclusiva da classe dominante. Trata-se de uma concepção que vê que as lutas de classes populares se desenvolvem, ou ficam latentes, aprisionadas, sufocadas pela dominação e repressão do Estado autocrático. Já Octávio Ianni vê a política como um acontecimento em uma tela gramatical transdialética:
“À medida que se formava e desenvolvia o Estado nacional, organizava-se o aparelho estatal de modo a garantir o regime de trabalho escravo. Depois, à medida que o regime de trabalho escravo foi sendo substituído pelo de trabalho livre, os grupos e as camadas dominantes reorganizaram o aparelho estatal de modo a garantir o predomínio dos seus interesses, em detrimento de trabalhadores rurais e urbanos, negros, índios, imigrantes. Os governantes reagiam negativamente às reivindicações populares. ‘Na lei e no debate parlamentar sempre se distinguiu revolução, feita por gente igual, e rebeldia, sedição e insurreição, feitas por gente menor socialmente ou por escravos’. Daí a brutalidade da repressão. Nem por isso, no entanto, os setores populares deixavam de reivindicar, protestar, lutar”. (Ianni: 13).

A fórmula gramatical de Ianni é um resumo da via prussiana:
“Desde o começo, o Brasil tem um jeito de território ocupado; e o povo aparece como povo conquistado. Desde o princípio os blocos de poder aparecem como arranjos de conquistadores”. (Ianni: 11).

A revolução democrática contra o Estado absolutista militar 1968 foi interrompida pelo governo autocrático de Sarney: continuação do regime militar fascista por outros meios, ou seja, meios civis. Sarney significa a política octaviana (Ianni) da força de ocupação oligárquica nordestina da via prussiana. A Assembleia Nacional Constituinte e a Constituição 1988 pareciam doar à política brasileira um novo começo, formal, democrático burguês. No entanto, o catastrófico regime Sarney da desesperança (na economia, na cultura e na política) educou o povo para esperar um herói, um salvador da pátria. Sarney elegeu Collor de Mello.

A transdialética gramatical governo neoliberal precoce versus massas grau zero neoliberal interrompeu, na metade, o governo Collor. Tudo recomeçou com o vice-presidente de Collor, o mineiro Itamar Franco e seu ministro ilustrado da economia Fernando Henrique.

O governo Itamar tirou o país do caos econômico sem precisar fazer um ataque frontal ao Estado de massas 1988. O efeito foi FHC ser eleito e reeleito presidente. Para ser reeleito FHC usou o Congresso no golpe de Estado branco para mudar a Constituição que proibia reeleição. A era dos governos do PSDB está marcada pelo golpe de Estado branco e pela criação da Okhrana (sistema de polícias secretas), em 1999, e pelo neoliberalismo tupiniquim. Por exemplo, a ideologia política do PSDB diz que é irrevogável a mudança da Previdência, ou Reforma da Previdência. Trata-se não de um problema político prático de estado, e sim de epigrama ideológico. O leitor pode ver a via prussiana FHC?

Na era FHC, há as lutas abertas de massas rurais e urbanas (cujo força dirigente na política é o PT) contra o governo do PSDB mais PFL (cuja origem é o partido Arena do estado militar absolutista 1968). As lutas das massas e a política hábil do PT (Lula é o gramático de tais lutas) levam Lula ao poder nacional. Não obstante, o PT não se tornou a força dirigente da revolução democrática burguesa. Ele fez a escolha de uma política de ocupação de massas, ou seja, a via prussiana do projeto hegemonia petista.

A via prussiana do bolivariano usou o multiculturalismo para fazer aliança com vários setores burgueses e oligárquicos, incluindo o Grupo Globo carioca. Ao invés de tentar realizar a revolução industrial capitalista (em sentido amplo), o PT de Lula fez a política de esquerda fracassar, e ser derrotada por uma coalizão de forças oligárquico e burguesa que retomaram o caminho da via prussiana como política de força de ocupação sem povo, sem massas: governo Michel Temer-Henrique Meirelles.

Como todos os autores que discutem a revolução democrático-burguesa Octávio Ianni é cegado por uma nuvem espessa ideológica. Ele crê na Revolução Burguesa no século imperial:
“é inegável que vários acontecimentos ocorridos na época permitem colocar aos anos da monarquia como tempo das manifestações primordiais da revolução burguesa que se desenvolve desde 1888-89 em diante”. (Ianni: 14). 

É preciso ficar claro que Octavio foi capaz de ver a via prussiana, em estado líquido, na democracia populista (1946-1964):
“Mesmo em 1946-1964, quando virou democracia representativa, durante essa época os governos populistas incutiram conotações autoritárias no aparelho estatal”. (Ianni: 18).
O populismo representativo também foi a política de força de ocupação na cultura política nacional. Ianni também foi o primeiro sociólogo a tratar a cultura de massa como força de ocupação com seu conceito maquiavélico de Príncipe eletrônico. A transformação da cultura de massa em partido político significa que tal tela gramatical funciona como força de ocupação da cultura política nacional.

Nos EUA, criou-se a indústria cultura (Adorno). Trata-se da grande indústria da comunicação de massa como efeito da revolução capitalista industrial na cultura como tal, no domínio das ideologias e teologias, no campo da cultura política, na economia real e na política estrito senso.

Na América Latina, ergue-se um modo de produção e circulação manufatureiro de mercadorias culturais. A manufatura cultural é parte do desenvolvimento desigual e combinado da cultura ocidental. A televisão dos seriados americanos no Brasil inscreve, entre nós, a indústria cultural americana. No entanto, o nosso jornalismo televisivo é um efeito do modo de produção manufatureiro cultural de massa. A ligação do jornalismo televisivo com a política nacional de Brasília e local, põe e repõe o modo de produção manufatureiro cultural como força de ocupação da política nacional.

Em sentido amplo, a política se tornou um espaço relativo com o desenvolvimento das redes sociais da internet. Hoje, a cultura política nacional tem na internet um domínio irrevogável da neutralização da soberania do Príncipe eletrônico octaviano sobre ela (cultura política nacional e local) e a política como tal. Sem sombra de dúvida Octávio Ianni foi o sociólogo marxista que descortinou o fantasma lacaniano da soberania da cultura de massa no regime constitucional 1988. Fernando Collor foi eleito por sua campanha de marketing na televisão. Hoje, o sucedâneo (ersatz) do fenômeno Collor ocorre nas redes sociais da internet: capitão-deputado carioca em Brasília Bolsonaro.

A possibilidade da revolução democrático-burguesa deixou de ser uma utopia com o movimento de massas urbano 2013. Deixou de ser uma utopia no terreno da técnica industrial, pois, a internet é técnica que pode se desenvolver com a revolução capitalista industrial econômica, cultural e científica, entre nós!
                                                                                                VI    

EXISTE UMA BURGUESIA BRASILEIRA?    

No pequeno dicionário O que se deve ler para conhecer o Brasil, no verbete Revolução brasileira, Nelson Werneck Sodré arrola uma bibliografia que fala de uma revolução nacional para quebrar o passado no presente como estrutura colonial (193-195). Ele esqueceu o História Econômica do Brasil (1945), de Caio Prado Jr. 

Neste livro, o Brasil se integra na era imperialista sem mudança na sua estrutura econômica colonial:
“Segundo vimos, o ajustamento do Brasil à nova ordem imperialista se processou sem modificação substancial do caráter fundamental da economia do país, isto é, a produção precípua de gêneros destinados ao comércio exterior”. (Prado Jr: 1976: 287).

Para Caio, há o advento de uma República Burguesa (1889-1930) com sua ânsia de enriquecimento rápido, de prosperidade material. O homem de negócios é o sujeito gramatical de tal república. (Prado Jr. 1976: 208-209). Há essa mudança cultural, no plano dos valores do mundo-da-vida da classe dominante, com o surgimento de uma sociedade de significante do rico burguês. O surgimento da indústria manufatureira corresponde ao nascimento de uma burguesia manufatureira:
“Vemos portanto que são vários os fatores que atuam nesta fase que nos ocupa, no sentido de desintegrar o sistema econômico brasileiro fundado na grande propriedade agrária e voltado para a produção exclusiva de alguns gêneros exportáveis de grande expressão comercial nos mercados mundiais”. (Idem: 216).

A burguesia manufatureira paulista pode ser vista como um sujeito gramatical da revolução brasileira? Pelo conceito de revolução (1966) de Caio não pode:
“ ‘Revolução’ em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em um período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais”. (Pardo Jr. 1966: 1).

No Post Scriptum (1976) ao História econômica do Brasil, Caio diz que não houve revolução na era do capitalismo dependente e associado:
“Nos últimos parágrafos e conclusão da HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL foi notado que ‘as largas perspectivas para reestruturação da economia brasileira em bases novas, mais condizente com o nível atingido pelo nosso povo, ... são contudo, no fundamental obstada pelos remanescentes do velho sistema’. E é em tal circunstância que se encontram ‘as raízes das dificuldades e perturbações econômicas que atingem tão profundamente a vida do país”. (Pardo Jr. 1976: 345).

Dependência e desenvolvimento na América Latina ´ é o livro que transformou Fernando Henrique Cardoso no gramático da política na era do capitalismo dependente e associado. Este livro provocou o aparecimento de toda uma literatura econômica defendendo que o Brasil tinha se tornado um país capitalista tout court:
“Se, DURANTE o período de formação do mercado interno, o impulso para uma política de industrialização foi sustentado, em certos casos, pelas relações estáveis entre nacionalismo e populismo, o período de diferenciação da economia capitalista – baseada na formação do setor de bens de capital e no fortalecimento dos grupos empresariais – está marcada pela crise do populismo   e da organização política representativa dos grupos dominantes. Percebem-se também nesse lapso de tempo os primeiros esforços para ordenar o sistema político e social sobre novas bases que expressem a vinculação com o setor produtivo orientado para o mercado interno e as economias externas dominantes”. (Cardoso: 114).

FHC evita entrar no debate sobre revolução burguesa democrática. PORQUÊ? É simples! Ele é uma raposa felpuda uspiana. A revolução capitalista foi realizada pelo Estado militar, na era da ditadura militar. Portanto, não se trata de uma revolução burguesa democrática, e sim de uma revolução econômica da autocracia burguesa, de Florestan Fernandes. Nas ciências gramaticais da política, trata-se da revolução pelo alto conservadora, isto é, da VIA PRUSSIANA.  O capitalismo dependente e associado é a nossa via prussiana no território da economia nacional. Nela, a burguesia brasileira se alia com as multinacionais para constituir uma economia para uma minoria de consumidores da sociedade brasileira.

Celso Furtado interpretou o capitalismo dependente e associado ainda como modelo de subdesenvolvimento industrial voltado para um mercado consumidor minoritário. Não há a formação de uma sociedade de consumo nacional, abrangente, de mercadorias capitalista.  (Furtado. 1975: 9).

Porém, em 1978, ele se rendeu à gramática da dependência, e elaborou a ideia do desenvolvimento dependente e associado, aproximadamente, como a via prussiana do subdesenvolvimento capitalista:
“A dependência deve ser percebida inicialmente como um conjunto de traços estruturais que emergem da história: a forma de inserção no sistema de internacional do trabalho gerando um atraso relativo no desenvolvimento das forças produtivas; a industrialização supeditada pela modernização reforçando as tendências à concentração da renda; a necessidade de importar certas técnicas facilitando o controle de atividades econômicas pelas empresas transnacionais. Somente numa segunda leitura é que a dependência deve ser entendida como uma posição fraca ou subordinada nas confrontações que conduzem à fixação dos preços internacionais e, por último, determinam a apropriação do excedente gerado pela divisão internacional do trabalho”. Furtado. (1978: 146).

O historiador marxista do PCB Nelson Werneck Sodré vê a Via Prussiana como efeito da Revolução 1930:
“A hegemonia conquistada no movimento de 1930 permite à burguesia optar pela ditadura instalada em 1937 como Estado Novo, inserida na larga tendência ascensional das formas agudas – fascismo, nazismo, militarismo – com que a burguesia, em escala mundial, definia o pânico a que fora levada pela crise e pela ameaça do socialismo triunfante na Rússia anos antes”. (Sodré. 1997: 78).

Sodré também associa a via prussiana brasileira a subjugação burguesa populista da questão democrática à questão nacional:
"É uma fase em que a questão nacional é trazida a primeiro plano, com sacrifícios da questão democrática. A burguesia não está interessada nesta, mas naquela”. (Idem: 79).

A burguesia é um significante de Marx que se constitui como classe social nas lutas de classes contra o feudalismo para criar uma sociedade moderna burguesa; ela é um acontecimento estético que dá origem ao significante tragédia histórica. (Marx. 1974: 336). Onde conquistou o poder gramatical, O ORIGINAL da burguesia destruiu as relações senhoriais (feudais na Europa), patriarcais, idílicas:
“Ha sustituído las numerosas libertades escrituradas y bien alquiridas por la única y desalmada libertad de comercio”. (Marx. sem data: 24).               

Sodré é claro sobre o momento que a burguesia surge como classe social, no Brasil, subjugada ao poder senhorial:
“Esse desenvolvimento – de que as inovações na legislação dão sinal – conhece, nos fins do século, significativa mudança qualitativa. É o primeiro grande lance da acumulação capitalista marcada pelas reformas políticas, de que a abolição do trabalho escravo, com as precedentes leis do Ventre Livre e dos Sexagenários, foi a mais destacada, e que esteve associada ao advento da república. Antes havia burgueses isolados, como indivíduos. Ilhados pelo predomínio absoluto do latifúndio e numa sociedade em que eram minoria reduzida. Agora, já se delineia a burguesia como classe. Como tal dando os seus primeiros passos, em inequívoca subordinação à classe senhorial”. (Sodré. 1997: 74).   

A burguesia de Sodré é uma cópia cômica-grotesca do original europeu. Trata-se de um ersatz de burguesia que faz pendant com a via prussiana, ainda hoje, do desenvolvimento do subcapitalismo dependente e associado em franca perda do controle da economia, da política, da cultura e das ideologias como fantasma lacaniano do futuro próximo.     
  
BANDEIRA DA SILVEIRA, José Paulo. Política brasileira em extensão: para além da sociedade civil. RJ: Edição de autor, 2000
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