quarta-feira, 21 de junho de 2017

A GRAMÁTICA DIALÉTICA DA TECEDURA DA POLÍTICA


José Paulo

A política é tecedura. (Platão: 238).

Há uma divisão do trabalho; máquina; fio sólido e fio flexível; tração da tecedura ou divisão do trabalho; fabricação da urdidura; entrelaçar na urdidura e resistir às trações da tecedura = fios da trama, fabricação da trama NARRATIVA DA POLÍTICA; tem torção (e distorção); operação da reunião (parte do trabalho de lã) entrelaça a urdidura e a trama para formar o tecido ou vestimenta de lã narrativa; é a arte da tecedura e de evitar a torção da urdidura.

Vestimenta é a espécie de 2° objeto vasilhame (Platão: 242) que conserva a política. Qual é a vestimenta, a roupagem, a plumagem da política? As culturas políticas e a ideologia gramatical dominante no real.  Esse é o meu caminho do método de gramaticalização do “Politico”.

                                                             POPPER

Começar por Popper significa dizer que o problema do texto POLÍTICO é o do totalitarismo e do caos do povo das raças demoníacas regendo a cidade atual em choque virtual com a gramática em narrativa dialética da polis como tecido da política?

O ponto de partida desse meu texto é uma ideia de Popper. Popper identificou o totalitarismo em Platão (que ele designa por método historicista ou essencialista); e o método de Popper é arrancar da filosofia magistral de Platão essa ideologia gramatical totalitária que invade o real do pensamento da política do platonismo durante séculos.

Trata-se de um projeto ambicioso e narcísico, mas que organiza os problemas da ciência real platônica, ciência do governo dos homens na polis, elemento primário para o entendimento da política: “conhecimento de coisas e como manifestação de FORÇAS e como aparência – Erscheinung – governada por Leis” (Inwood: 79, 169). Na ciência gramatical da política, trata-se de pensar a política no campo de forças, (e/ou poderes) e atores, campo regido e regulado por um significante gramatical e seus feitos nos sujeitos gramaticais deste campo. Platão se diferencia de Lacan, pois, para ele o sujeito não é um efeito do determinismo do significante. O sujeito tem livre arbítrio relativo ao significante. É a ideia de Popper de mecânica social (Popper: 47-50).  

Há totalitarismo em Platão? Há uma Ideologia gramatical totalitária no Platão do texto POLÍTICO?

Há político totalitário que se liga à tradição totalitária da tradição, inclusive, democrática da polis e da politeia. O assassinato de Sócrates pela politeia é passagem ao ato totalitário da história universal (Fédon). Popper diz que Platão viveu mal e sofreu muito na democracia, o pior dos governos entre os governos com lei, o melhor dos governos entre os governos sem leis.

Platão era da família de dois tios tiranos (Crítias e Cármides) que governaram na era da forma de poder impolítico conhecida como governo dos Trinta Tiranos e tinha parentesco com Solon, o legislador de Atenas (Popper: 34). Viveu em uma época na qual as formas de poder significavam o real da realidade das coisas sensíveis. A forma política de governo é mais real que o real das coisas sensíveis. Ela é a forma que faz da vida o impossível de ser suportável pelo sofrimento que é capaz de causar.  
: “Consideremos que a diagnóstica psicanalítica se insere no quadro maior
de uma metadiagnóstica da modernidade. Esta metadiagnóstica supõe a
existência de um elemento comum, que caracteriza antropologicamente e
define historicamente os modos de subjetivação que chamamos de modernidade.
O centro sem substância dessas formas de vida seria composto por
narrativa, discursos e teorias acerca da perda da experiência (Ehrfahrung).
Segundo Honneth (2006), há uma dupla interpretação da modernidade,
a partir da antropologia filosófica, de Montaigne a Rousseau, e a partir da
filosofia da história, de Hobbes a Hegel. Ambas partilham a ideia comum
da perda da experiência, entendida alternativamente como incapacidade do
sujeito de reconhecer-se em sua própria história particular ou como dificuldade
de estabelecer formas sociais universalmente compartilháveis. Alienação
e fetichismo seriam duas figuras fundamentais de nomeação desse bloqueio
da experiência. (http://www.scielo.br/pdf/ts/v23n1/v23n1a06).
O real do sofrimento funciona como sofrimento pelo bloqueio (alienação e fetichismo) da relação do sujeito gramatical com o significante gramatical, pois, ele é impedido de metabolizar, verdadeiramente, o real da sociedade política como mundo das coisas sensíveis (significantes gramaticais como coisas sensíveis ou melhor, a forma de poder político sensível (governo, poder, Estado) quanto mais a forma de poder impolítico do mundo insensível (. Popper: pp 45).

A IMPOLÍTICA COMO GRAMÁTICA EM NARRATIVA ILÓGICA DO (in.sen.sí.vel), das massas insensíveis: multidão sgrammaticatura da percepção sensível da polis, da cidade, mais rigorosamente, pois a polis se transforma em cidade econômica, por exemplo, perdendo seu caractere virtude política.
1. Que não tem ou não demonstra sensibilidade (sujeito insensível)
2. Que não tem sensibilidade física: O cientista só trabalhava com matéria insensível.
3. Que demonstra dureza de sentimentos (assassino insensível)
4. Que se mostra indiferente aos valores da beleza, da arte: Era insensível à música.
5. Que não se sensibiliza com nada; a quem nada inspira ou causa emoção, comoção; APÁTICO; INDIFERENTE; IMPASSÍVEL
[F.: Do lat. insensibilis, e. Ant. ger.: sensível. ]

 O Supracitado reunido conjunto de sentidos do significante forma de poder insensível sobre o sujeito gramatical insensível que se condensa na forma de poder (ou forma de governo do mundo do significante insensível): a insensibilidade política; a matéria subjetiva insensível; o sujeito apático (ou indiferente ou impassível) em relação ao modo de agir da impolítica.

A leitura de Popper de Platão com Lacan põe e repõe o problema do dualismo essencialista versus nominalismo metodológico. Platão é um essencialista metodológico com a separação da realidade em realidade inteligível e realidade sensível. A teoria das formas e ideias fazendo pendant com a realidade inteligível real e a teoria do simulacro com a realidade do mundo sensível: da fantasia, do fantasma, da ilusão.

No livro Político, a gramática da tecedura da sociedade política pode criar uma interseção entre ambas teorias, ambas realidades? Sociedade quer dizer história heraclitiana, fluxo temporal das coisas sensíveis, das cópias, dos 6 simulacros da 7°espécie de forma de poder político ou constituição de governo. As 6 formas-simulacros são similares ao original ou 7°forma de poder político.

SE a natureza, a estrutura do significante gramatical virtual da 7°forma é totalitário, as 6 cópias também serão, por similitude, formas de poder governamental totalitários. Este problema é extraído, não de Popper, mas do próprio Platão. Houve uma época para a qual o único interesse em Platão consistia em investigar sua ideologia gramatical totalitária.

Há várias passagens em Platão sobre o totalitarismo do mundo sensível similar à única forma de poder governamental virtual-real, verdadeira, justa. A espécie sétima. Cito:
“É indiferente também que eles sejam obrigados a matar ou exilar alguém a fim de purificar e sanear a cidade; que exportem emigrantes como exame de abelhas, para tornar menor a população, ou importem pessoas do estrangeiro, concedendo-lhes cidadania, a fim de torna-las maior. Enquanto se valerem da ciência e da justiça, a fim de conservá-la, tornando-a a melhor possível, e por semelhantes termos definida, uma constituição deve ser, para nós, a única constituição correta. Quanto as demais, que mencionamos, acreditamos não serem constituições legítimas, nem verdadeiras: não passam de imitações que, se produzem boas leis, é por serem cópias dos melhores traços desta constituição correta, e, em caso contrário, por copiar-lhe os seus piores traços”. (Platão: 250).

Quais são os melhores ou os piores traços? O uso da ciência e da justiça pelo chefe real em posse (monarca real em contraposição ao monarca tirano) da arte de governar os homens e a polis define os melhores traços da 7°forma de poder governamental. O que define os piores traços?
O monarca real se distingue do TIRANO pela posse do saber da ciência da gramática tecedura narrativa real da sociedade política. O tirano detém a posse do saber simulacro de ciência da arte de governar os homens e a polis:
ESTRANGEIRO
“- Necessariamente, pois, parece que entre todas as constituições, esta será a absoluta e unicamente exata, na qual os chefes seriam possuidores da ciência verdadeira e não de um simulacro de ciência; e esses chefes, quer se apoiem ou não em leis, quer sejam desejados ou apensa suportados, pobres ou ricos, nada disso assume a menor importância na apreciação da norma exata”. (Platão: 250).

A posse da ciência real verdadeira em um contraponto ao simulacro de ciência real faz do exercício do poder totalitário uma forma de poder governamental justa (forma legítima na tradução moderna do texto Político). Copiar os piores traços é copiar a narrativa retórica das fábulas (Platão), colocando-as no comando da sociedade política.  A retórica das fábulas é parte da ciência real, mas como subsunção real à filosofia do monarca-filósofo. A retórica das fábulas é o governo das massas pela imaginação da ciência real, mas ela não pode deter o comando da arte de governar e dirigir o homem real e muito menos o homem político (Platão: 251).

A narrativa é extraída da arte do paradigma da gramática da tecedura virtual-real encarnada no filósofo-rei (Platão232, 258):
“- o que aconteceria a tudo isso, conduzido pela sorte, regido pela escrita em lugar de orientado pela arte?
SÓCRATES, O JOVEM
- É claro que veríamos desaparecer todas as artes, sem esperança alguma de retorno, sufocadas por essa lei que proíbe toda pesquisa. E a vida que já é bastante penosa, tornar-se-ia então totalmente insuportável” (Platão: 256).

A forma de poder político baseado na lei escrita só poderá ser uma forma totalitária?

O ESTRANGEIRO DIZ:
- Portanto, em qualquer domínio em que se estabeleçam leis e códigos escritos, impõem-se, em segundo lugar, jamais permitir ao indivíduo ou à massa qualquer ato que possa infringi-los, no que quer que sejam”. (Platão: 256).

O insuportável (definição de real de Lacan) e o desagradável (um insuportável que não é ainda o real da forma de poder totalitária perfeita, como desejava o fascista alemão) é a questão mais estratégica do campo do agir:

ESTRANGEIRO
“- Qual é pois, entre essas constituições imperfeitas (as seis formas de poder simulacros do único original), aquela onde a vida é menos desagradável – pois é desagradável em todas – e qual é a mais insuportável? Eis o que nos é necessário ver, ainda que isso tenha pequena importância com relação ao nosso assunto atual. Mas talvez, de um modo geral, é essa a questão que domina todas as nossas ações”. (Platão: 258-259).

Os governos de um só, de alguns ou da multidão constituem as três grandes formas de poder governamental. Divide-se cada uma delas em duas partes, formando seis, e ainda temos de lado virtual a sétima forma de poder, a única verdadeira. O par se divide pelo governo da lei ou da falta de lei.

Entre as formas imperfeitas de poder: “A monarquia unida a boas regras escritas a que chamamos leis, é a melhor das seis constituições, ao passo que, sem leis é a que torna a vida mais penosa e insuportável”. (Platão: 259). A forma de poder mais insuportável é o grau zero da felicidade e o grau máximo do realmente insuportável. Lacan Com Platão significa que o real é a forma de poder sensível governamental do TIRANO. Trata-se do simulacro de forma de poder do original monárquico real como o mais real que o próprio real que é o real da forma de poder racional.

O poder racional é o poder da teoria gramatical da tecedura do rei-filósofo:
“Mesmo quando o chefe único possui verdadeiramente a ciência, nós lhe daremos, sem hesitar, esse mesmo nome de rei, pois o conjunto das constituições que distinguimos aqui não comporta mais de cinco”. (Platão: 258).

Até aqui para Platão a democracia não é par é ímpar. Prosseguindo, a democracia é dividida em duas formas: governo da multidão com lei e sem lei:
“Finalmente o da multidão é fraco em comparação com os demais e incapaz de um grande bem ou de um grande mal, pois nele os poderes são distribuídos entre muitas pessoas. Do mesmo modo, esta é pior forma de constituição quando submetida à lei e a melhor forma quando estas são violadas. Estando todos elas fora da restrição da lei, é na democracia que se vive melhor (observem o caráter totalitária da lei às avessas); sendo, porém, todas bem ordenadas esta é a última que se deveria escolher. Sob este ponto de vista a que nomeamos em primeiro lugar é a melhor (monarquia constitucional) de todas exceto a sétima, pois ela se assemelha a um deus entre os homens e é necessário colocá-la à parte de todas as demais constituições”. (Platão: 259-260).

A democracia sem lei é a melhor forma de poder governamental entre as formas sem lei. No conjunto com lei, a monarquia do chefe real é o melhor modo de vida da sociedade política. A democracia sem lei é o avesso da tirania? A tirania é governada pela realização da satisfação dos desejos do tirano, do ponto de vista da relação da forma de poder governamental com o princípio do prazer fazendo pendant com o princípio de realidade (forma de poder governamental).
A democracia sem lei é o melhor modo de vida (em geral, ela é a felicidade freudiana), pois, ela é a realização da satisfação dos desejos ilimitados circunstancialmente da multidão que governa. Em geral ela é a expressão da felicidade freudiana dos indivíduos e das massas da sociedade narcose (Freud: 100).

Popper estabelece uma ligação dualista entre teologia/episteme (teoria das formas e ideias) e formas de poder governamental (que serve especialmente para pensar a democracia como pior ou melhor modo de vida para o indivíduo e a multidão que governa:
“A ideia platônica é o original e a ordem das coisas é a racionalidade, a razão de sua existência a; o princípio estável e sustentador em virtude do qual ela existe. É a virtude da coisa, seu ideal, sua perfeição“. (Popper:42).

Este enunciado laico tem parentesco com a teologia:
“Poderá contribuir para a compreensão da teoria das Formas ou ideias de Platão uma comparação com certas crenças religiosas gregas (...) Em consequência certas tribos e famílias levavam sua ancestralidade até um ou outro dos deuses. (Diz-se que a própria família de Platão ligava sua origem ao deus Poseidon). Basta-nos considerar esses deuses são imortais e perfeitos – ou muito perto disso – enquanto os homens comuns se envolvem no fluxo e refluxo de todas as coisas, sujeitos a decadência (que em verdade é o derradeiro destino de cada indivíduo humano), para ver que esses deuses se relacionam com os homens do mesmo modo que as Formas ou ideias de Platão se relacionam com aquelas coisas sensíveis que são suas cópias”. (Popper: 43). 

Para não ficarmos só nesse plano teológico político, vejamos a teologia secular da queda:
“como Santo Agostinho e os primeiros autores patrísticos, Platão admite o valor relativo das instituições que pertence à humanidade decaída, e que estão a ela ajustados”. (Barker: 331).

A queda e a degeneração podem ser evitadas pelo agir parar a mudança. Para tal feito, é preciso arte e engenho, ciência real do rei-filósofo associada a um campo de poder onde reine o estadista (ou político) que faz parar o fluxo das coisas sensíveis, das cópias, dos simulacros que dominam a sociedade política:
“A arte do estadista é conhecimento verdadeiro: a única forma genuína de governo é aquela em que os governantes são sábios (293B); e o único Estado verdadeiro é o dirigido por tais governantes. Em outras palavras, o Estado não pode ser uma sociedade política a não ser mediante a unidade que lhe dá poder coordenador da arte do governo baseada no conhecimento verdadeiro (de outro modo não passará de uma facção política); e este conhecimento só pode ser alcançado por uma pessoa, ou no máximo por algumas pessoas. A massa não pode ter acesso à ciência política (292B), e o estadista verdadeiro é sempre um dos poucos que chegaram a adquirir conhecimento daquela ciência”. (Barker: 333).

A imagem platônica de Sir Ernest Barker faz pendant com a relação elite e massas da teoria das elites? Trata-se de uma imagem totalitária como fantasia lacaniana do passado no século XX? Na década de 1950, o mais notável dos elitistas possuía uma imagem quase digestível do totalitarismo platônico, que teria existido como cidade-estado em uma época longínqua, quando reinava ainda no mundo da idade do ouro, que foi substituída pela idade da prata, era da timocracia na qual os guerreiros se teriam tornado superiores aos sábios:

Na idade do ouro: “Bem entendido, a educação deve tender a desenvolver os sentimentos elevados e sobretudo a fazer com que o cidadão abandone qualquer sentimento egoísta e esteja sempre pronto a sacrificar-se pelo bem do Estado. Este deve ser considerado como uma grande família, pois o número de cidadãos não deve ultrapassar um certo limite. A cidade não deve ser construída à beira-mar, a fim de evitar os contatos com os estrangeiros que poderiam tornar-se perigosos introduzindo novos costumes e alterando a unidade moral dos cidadãos”. (Mosca: 48). O estrangeiro significa mudança!

Em Barker, o totalitarismo platônico é pintado com fortes pinceladas:
“Que dizer, então, das leis e do consentimento, como princípios políticos e elementos do Estado? Trata-se de fatores irrelevantes e desnecessários, responde Platão: na verdade, as leis são mesmo prejudiciais. Em sua essência a arte do estadista é uma ciência do tipo imperativo, revestida de controle soberano; é uma arte, e é essencial a toda arte que o seu praticante a exerça soberanamente, livre de quaisquer regras que determinem os seus métodos de trabalho (embora todos os demais artistas, exceção feita ao estadista, trabalhem sob controle deste, e portanto não sejam soberanos) ”. (Barker: 333).

Quanto as leis da polis Platão se refere a cidade histórica grega regida por uma ordem escrita totalitária com uma tradição de costumes que podem ser considerados absolutistas (Platão: 266).

Barker é fiel ao texto platônico sobre a lei da polis:
"É possível que o temor platônico à rigidez das leis seja excessivo, mas é preciso não esquecer o caráter das leis em que ele estava pensando: a Lei grega era um corpo fixo de preceitos, praticamente estático. Os estados helênicos valorizavam o instinto de obediência (‘eunomia’) a essa lei fixa, e temiam as inovações”. (Barker: 336).           
                                                                PLATÃO COM FREUD E KELSEN
                                                                                                          
Platão com Freud é o início do fim do dualismo essencialista de Platão? O paradigma da gramática da tecedura das formas de poder da sociedade política (= história) associados ao princípio da realidade e ao princípio do prazer nos permite pensar com um Platão monista?

Em sua leitura de Freud, o jusfilósofo neokantiano Hans Kelsen abre esta porta para nós:
“Do ponto de vista da crítica do conhecimento, faz-se particularmente necessário remover o método teológico das ciências do espírito e sobretudo das ciências socais – aniquilar o sistema dualista. E a análise de psicológica de Freud prestou um importantíssimo serviço em seus elementos psicológicos individuais as hipóstases de deus, da sociedade e do Estado, não obstante a carga mágica de sua terminologia centenária”. (Kelsen. 1993: 343).

                                                                    ...E POPPER             
Entre os destacados interpretes do totalitarismo platônico, Kelsen diz, ao contrário de Popper, que a justiça do chefe único real autocrata absolutista não é dita (ou definida) por Platão em toda a sua obra (Kelsen. 1995: 498). Ao contrário, Popper define a justiça totalitária em uma leitura sociológica moderna de Platão que liga justiça totalitária com sociedade de classes.

A justiça totalitária popperiana é anti-igualitarista, anti-individualista e anti-humanista. O objetivo dela é o governo da classe dirigente ou governante como está claro na página 103:
a)            A classe governante é aquela dos pastores e cães de vigia, que deve ser inteiramente separada do gado humano: indivíduo e/ou massas
b)           Deve zelar pela identificação do destino do Estado com o da classe governante.
c)            A classe governante tem o monopólio das virtudes, adestramento militar de comando, o direito ao monopólio das armas, de receber educação de qualquer espécie.
d)           Deve haver censura de toda atividade intelectual da classe dirigente e uma propaganda contínua para que ela metabolize a ideologia gramatical dominante. Qualquer inovação em educação, legislação e religião deve ser evita ou suprimida.
e)           O Estado deve ser autossuficiente, uma autarquia econômica. Deve haver uma autonomia absoluta do estado em relação à economia mercantil, economia dominante quase burguesa na antiguidade.
f)            O significante gramatical da ideologia gramatical dominante é: PARAR A MUDANÇA. (Popper: 102).

Não há no monumental A sociedade democrática e seus inimigos especialmente na parte dedicada a justiça em geral (105-107) e na parte sobre a justiça em Sócrates (Popper:145-151), não há a ideia de justiça gramatical de Sócrates: não prejudicar (Platão. A República: 20, 23) em contraposição à justiça gramatical do sofista Trasímaco, ou seja, justiça oligárquica: fazer o bem para o amigo, o mal para os outros. Para Sócrates a sua deveria ser a justiça da politeia democrática virtual socrática em contraposição à justiça da tradição totalitária escrita da democracia que o condenou a beber cicuta por causa de sua prática de demolição crítica dos líderes democráticos (Popper: 146).

A definição de justiça do lado direito (Sócrates) e do lado avesso (Trasímaco) põe uma dívida razoável quanto a afirmação de Kelsen de que em Platão não há nada dito sobre o significante gramatical justiça. Se o rei é o filósofo socrático, isto é, o amante da sabedoria em incessante autocrítica, Lenin fez do partido bolchevique o rei-filósofo socrático. Porém, a justiça leninista não pode ser a justiça socrática, pois, a luta de classes não o permite. É impossível praticar o não prejudicar movido por uma ideologia gramatical de guerra capitalista entre as classes.

O rei-filósofo de Platão é aquele chefe único real perfeito da justiça socrática? Para Platão, a justiça socrática é um impossível sujeito gramatical em uma sociedade política em fluxo historial das formas de poder. Então, parar a mudança, parar o fluxo das coisas sensíveis de se inscrever no real só substituindo tais simulacros pela sétima espécie de forma de poder governamental imutável e perfeita como Deus (Platão: A República: 78). Aí seria atualizável e possível a justiça socrática? No entanto se trata da passagem da história para a teologia platônica. Toda a crítica a sétima espécie de forma de poder governamental como autocracia absoluta, em Kelsen, se faz no território da sociedade política e pelo esquecimento da teologia política de Platão. 

Quanto a atualização do totalitarismo sociológico nominalista de Platão para o século XXI, Popper esquece que a política da sociedade civil pode ser, justamente, o estabelecimento de controles, incluindo aí como ator gramatical as massas, da sociedade civil sobre a classe governante. A própria classe simbólica (intelectual) pode agir como instância de controle sobre a classe governante, sendo ele parte da classe dirigente. A atualização do totalitarismo sociológico platônico popperiano não precisa ser naturalmente totalitário ou autocrático absolutista.

Sobre a inexistência de uma ciência real, Kelsen não leu no Político a ciência real como paradigma gramatical da tecedura da sociedade política em narrativa retórica e/ou gramática lógica dialética filosófica:
“Resulta daí, entretanto, que a arte de governar caracterizada por Platão como um saber ou uma ciência – visto que ele declara ser a razão o seu fundamento –, na verdade não e saber ou ciência alguma, nem tem coisa alguma a ver com razão, em seu sentido racional”. (Kelsen. 1995: 500). A razão para Kelsen não inclui o caminho do logos para a gramática em narrativa dialética da sociedade política.   

Kelsen está falando da razão científica moderna (modelo para ser ler a razão da antiguidade na era da modernidade liberal do século XX em luta mortal contra o totalitarismo) e não na razão gramatical dialética da tecedura da sociedade política, claramente exposta, em detalhes, e sentido geral, no Político. A profundar tal questão só recorrendo a Heidegger, no seu Metafísica de Aristóteles Ɵ 1-3. Sobre a essência e a realidade da força, nas páginas 13-14).

                                                                    BOBBIO E LACAN
Bobbio escreveu um livro para os departamentos de ciência política da Itália sobre as formas de governo. Na tipologia geral tem-se três formas boas no lado direito (monarquia [governo de um só], aristocracia [governo de alguns] e democracia positiva ou politeia [governo da multidão com leis) e no lado anverso três formas más (democracia [governo da multidão sem lei], oligarquia e tirania [governo sem lei, da arte do simulacro, do uso violência sem limite, governo baseado na realização da satisfação dos desejos tirânicos do tirano]). Este último governo é a forma real de poder lacaniana, impossível de ser suportada. E a democracia negativa de Bobbio, pois, sem lei, é a melhor forma de poder para o indivíduo viver, pois, regida pelo princípio do prazer. Uma o avesso da outra!
Mas Bobbio diz que Platão acompanha a tipologia geral diferindo as 3 formas boas das 3 formas más.
Ele usa dois critérios:
“Relendo a passagem citada (nas quais Platão distingue as formas boas das más), veremos que esses critérios são, em substância, dois: violência e consenso, legalidade e ilegalidade. As formas boas são aquelas em que o governo não se baseia na violência e sim no consentimento ou na vontade dos cidadãos: onde ele atua de acordo com leis estabelecidas, e não arbitrariamente”. (Bobbio: 46).

O critério de Platão no Político não é se a forma é boa ou má, mas se o exercício do poder da forma de governo é real, mais real ainda, ou mais real que próprio o real. Todas as formas simulacros propiciam uma realidade desagradável (mais ou menos desagradável) ou impossível de ser suportado. E isto não tem a ver com a forma obedecer a lei escrita. A democracia com lei pode ser a forma de poder mais desagradável para se viver só sendo suprassumida pela tirania do chefe único da arte de governo pelo simulacro que torna a vida no mundo-da-vida mais real que o real, e, portanto, mais insuportável que o insuportável.

Como governo da multidão baseada na arte de governar os homens e a polis pelo princípio do prazer (algo próximo da ordem lacaniana regrada pela ética lacaniana do prazer), a democracia é a melhor forma de governo para o indivíduo viver, pois, aí predomina a sociedade da felicidade do político, parodiando pedestremente Freud.
                                                                                 REI-FILÓSOFO
No Capítulo 8. O Rei-Filósofo cujo objeto gramatical é o rei-filósofo como forma de poder pessoal gramatical governamental, Popper faz sua leitura marxista do platonismo. Ei-la!

O poder pessoal do rei-filósofo é o poder pessoal de Platão que esperava ser conclamado para reinar em Atenas (Popper: 171-174). O poder pessoal é um poder totalitário, pois, o rei-filósofo tem o direito –dado pela posse da ciência real ou gramática em narrativa da tecedura retórica – de mentir como remédio forte parte do uso da medicina política, uso do mercado de cada curandeiro:  “a venda de feitiços, de encantamento criadores de raças, em troca de poder sobre seus cidadãos”. (Popper: 174).

Popper usa a ideia de rei-filósofo para fazer emergir a classe simbólica (classe do intelectual ou filósofo-rei) em sua relação com a classe política. Para o Platão de Popper, a classe dirigente deve ser a junção da classe simbólica com a classe governante ou política: “- A menos – diz Sócrates -, em suas cidades, os filósofos sejam investidos do poder dos reis, ou que aqueles chamados reis e oligarcas se tornem genuínos e plenamente qualificados filósofos; a menos que estes dois poderes, o político e o filósofo, se fundam ( ao mesmo tempo que  sejam eliminados pela força os muitos que hoje seguem suas naturais inclinações apenas por um dos dois), a menos que isso aconteça, meu caro Glaucon, não poderá haver repouso; e o mal não cessará de agitar as cidades, nem creio eu, a raça dos homens”. (Platão: 169-170).

Platão-Sócrates fala da instabilidade política da forma de poder governamental da realeza, da oligarquia, da aristocracia, da democracia, enfim, da relação da classe simbólica com todas as formas de poder governamental. A intercessão entre o poder político e o poder simbólico ou cultural define a política como um modo eficaz de evitar a mudança da forma constitucional, pondo-a em repouso. A política é definida como interseção entre política tout court e as culturas políticas da classe simbólica condensadas em uma ideologia gramatical da cidade-estado (polis da antiguidade grega).

Entre as culturas políticas da classe simbólica se encontra aquela que faz uso da mentira como forma de enganar as massas e a própria classe política. Talvez, a classe simbólica seja o próprio estadista como efeito do significante-mestre rei-filósofo que é personificado por Platão. O estadista tem o privilégio de mentir para o inimigo, o povo (seus concidadãos) e, inclusive, para a própria classe política ou governante constituídas de homens livres e normais (Popper: 155, 157, 159).

Dizer a verdade é sempre a melhor política para as massas, mas para o estadista, o uso da mentira para governar os homens e a polis é uma necessidade cultural política e elemento gramatical da ideologia dominante. Popper crê que Platão inventou a propaganda totalitária stalinista ou hitlerista, pois, Lenin diz que a melhor política é aquela que diz a verdade para as massas. Para Platão, a classe simbólica ou classe cultural tem como primeiro compromisso o repouso da forma de poder governamental, ou seja, evitar por todos os meios táticos e estratégicos a mudança da constituição governamental. Se isso não parece da produção do contemporâneo, então, observem a forma de poder governamental, isto é, o campo de poder governamental constitucional dos Estados Unidos e da Inglaterra e outros campos de poder europeus.

 Uma outra forma de campo de poder político/poder cultural encontra-se em Kant. Para Sócrates e para Kant, a classe cultural é constituída por sujeito-ator gramatical frágil (efeito em parte do significante estadista e em parte livre-pensador), “todos, frágeis seres humanos”. (Popper: 174). Nem todos que pertencem à classe simbólica pode ver o seguinte: “ Aquele que pertence a esse pequeno grupo pode ver a loucura dos demais e a corrupção geral dos negócios públicos” (Popper: 172). No século XXI, a fração da classe cultural especializada na loucura se amplia em uma reprodução ampliada impressionante, mas ela nada entende da arte de governar os homens livres e a polis. Só as ciências gramaticais da política fazem a interseção entre poder político e poder cultural para efeito de investigação da política tout court e da política como interseção de poder político gramatical com poder simbólico lacaniano.

Encontramos em Kant o seguinte texto citado por Popper: “Não é provável suceder que os reis se tornem filósofos ou, os filósofos reis; nem seria isso desejável, visto como a posse do poder invariavelmente rebaixa o livre julgamento da razão. É, porém, indispensável que um rei – ou um povo real, isto é, que se governe a si mesmo, - não suprima os filósofos, mas lhes deixe o direito de se manifestarem em público”. (Popper: 170).

As formas de poder governamental totalitárias querem tratar o poder cultural do estadista ou como parte da cultura política witz de um povo de homens livres e normais (tratá-lo como uma infame paródia de estadista) ou, calá-lo pelo uso da força física ou simbólica ou até assassiná-lo:
“Algumas vezes, pelo menos, Platão esperava que fossem ter com ele, que o êxito de sua obra, a fama de sua sabedoria os atrairia. Outras vezes, sentia que só poderiam ser incitados a furiosos ataques, que tudo quanto atrairia sobre si mesmo seria ‘um rumor de gargalhadas e difamação’, talvez mesmo a morte”. (Platão: 173).

A política platônica é aquela da dialética entre o original e a cópia, o mundo inteligível e o mundo das coisas sensíveis do simulacro, entre duas formas de linguagem (Platão: 163). Dialética entre a política racional e a política real do racional mais racional que o racional, enfim, política do simulacro de simulação na gramaticalização pós-modernista que Baudrillard faz do significante guerra (stásis e pólemos) e/ou do significante poder cultural de Popper/Platão, (Baudrillard: 89, 119, 177).

A política do simulacro de simulação de um simulacro de classe simbólica faz do agir estratégico a essência de seu agir causando uma profunda mudança na política tout court e na política como fusão e poder político com poder cultural. A política se transforma em um campo puramente do agir estratégico:
“Pero Habermas considera las formas ˂estratégicas> de comunicación (tales como mentir, despistar, enganar, manipular, etc.) como derivadas; implican la suspension de ciertas pretensiones de validez (especialmente de la de veracidad), son parásitas del habla orientada al entendimiento genuíno”. (MacCarthy: 333).

Michel-Pierre Edmond confronta o problema do dualismo platônico cristão. Entre Deus e o mundo sensível se encontra o demiurgo. A filosofia platônica cristã estabelece que: Le philosophe, par la contemplation des idées, se rende semblable au divin et peut espérer aprés as mort la fusion de som âme, ansi transformé, avec lui. Cette interprétation fait de l avie comtenplative l’idéal religiuex et mystique de cet homme d’élite que’est le philosophe; elle privilégie le seul perfectionnement de l’individu et rebaisse considérerablement la visée du perfectionnement des hommes dans e par la vie politique”. (Edmond: 9).

O rebaixamento da vida política faz do filósofo um organizador dos meios materiais, terrestre da vida contemplativa. O filósofo demanda unicamente à cidade a garantia de sua própria segurança, de o deixar viver em paz. O filósofo se dedica ao exercício da episteme da investigação das formas e ideais reunidas no reino celestial em um antagonismo radial ao mundo doso homens e das coisas sensíveis. O homem existe no real investido por sua natureza divina. Tal fato intelectual assinala claramente o dualismo divino/animal do homem e o divino regula o agir do homem na construção de uma cidade justa.

O cristianismo platônico possui dois mundos. Um divino outro humano, congelados e fechados sobre si próprios. Do mesmo modo, isto torna aleatória toda atividade mediadora que religue um ao outro. Se concebe a passagem de um ao outro como um vôo. O abismo do dualismo  cristão pode ser gramaticalizado a caminho do monismo platônico: “Or Platon fait de Socrate un personnage qui mime Éros, ce petit dieu mobile qui lie le ciel à la terre et la terre au ciel. Lier implique une activité de liaison qui suppose un sujet ou um auteur. A cet auteur, Platon donne le nom de démiurge. (Edmond: 10).

No entanto, ligando o céu a terra, o demiurgo é um sujeito gramatical da teologia naturalis de Platão. Com o rei-filósofo se dá a passagem da teologia para a história? Passagem da teologia platônica para a teoria gramatical platônica secular.

O demiurgo é uma peça mestre da filosofia teológica de Platão. Ele é o tornozelo obreiro do trabalho do divino: “Le ˂Dieu n’ést pas cause de tout>ne sert pas seulement à innocenter le divin vis-à-vis du mal que font les hommes. Il indique aussi que si nous étions ˂intelligibles> ou dans ˂intelligible>, il n’y aurait pas besoin de démiurgie”. (Idem: 11).

Se o Deus cristão cria diretamente o mundo, o mundo em Platão é criado via intermediação do demiurgo entre as formas, as ideias (faz pendant com o mundo divino) e os simulacros. Não é o mundo divino ou aquele das ideias que produz esta ordem diretamente: “Il faut un médiateur. Il en est de même pour le dialecticien et pour le philosophe-rei, ces demiurgie politiques. On voit bien que la dévalorisation du thème démiurgique pae le platonisme chrétien conduit à l’idée du Dieu créateur, au rebaissement de la fonction du philosophe-roi. Si Le philosophe  a sa vraie vie dans le monde divin, il n’a pas du tout besoin de jouer les démiurges”. (Edmond: 11).

A definitiva passagem da teologia cristã platônica para a história da teoria política gramatical define o estatuto da cidade platônica:
A – Si les hommes qui apprennent à se reconnaître dans la figure du philosophe-rei, doivent se livrer au travail démiurgique, c’est parce qu’ils n’ont pas au départ de nature: nulle nature humaine inscrit dans un cosmos qui leur donnerait initialement identité propre et orientation (...) Les hommes, pour Platon, sont dans le flou, l’indétermination, l’etrangeté, ce dont rend compte la mobilité tous azimuts de leurs âmes. Ils sont à la recherche d’un lieu, d’un statut, d’un office à remplir e ils ne pourront satisfaire cette quête par la constituicion d’ordes. L’instituition de la cité correspondra à celle de leur propre identité. C’est là les sens de la fameuse correspondance entre l’âme e la cité”. (Edmond: 12).

O verdadeiro antagonismo gramatical não é entre o mundo divino ou das ideias e o mundo terrestre, mas entre o primeiro e aquele mundo das coisas sensíveis, dos simulacros que fazem do mundo-da-vida um estado caótico se comparado ao mundo da forma de poder político da realeza-filosófica. A forma de poder rei-filósofo é a encarnação do mundo das ideias realeza filosófica da gramática em narrativa tecedural da sociedade política.         

A sociedade política é feita de sujeitos gramaticais enérgicos e moderados em excesso. Isto é o real da realidade da sociedade política que equivale à história do homem real e do homem político:
Se na história não são escravos, os homens: “Quanto aos demais suficientemente bem-nascidos para que uma boa formação possa levá-los às virtudes generosa e para que um método hábil possa amalgamá-los uns aos outros, se inclinarem mais para a energia, pela rigidez de seu caráter, a ciência real marcará um lugar na urdidura; os outros se inclinam mais para a moderação constituem, para essa mesma ciência, e prosseguindo em nossa comparação, o tecido flexível e brando da trama. Sendo opostas suas tendências, a política se esforça por uni-los e entrelaça-los da seguinte maneira.
- Reúne, em primeiro lugar, seguindo as afinidades, a parte eterna de sua alma com um fio divino, e em seguida, depois dessa parte divina, une a parte animal com fios humanos” (Platão: 266-267).

Assim, o sujeito da cidade platônica é um sujeito gramatical em narrativa amálgama divina e animal em uníssono, longe de viver em um mundo de formas de poder governamental que lhe beneficia com a felicidade. Aliás, Santo Agostinho sabe que na cidade platônica sensível, os corpos políticos existem para governar e dirigir homens livres e a polis, em estados desagradáveis ou insuportáveis, ao contrário da cidade de Deus: “todas as partes do corpo incorruptível, agora destinadas a certos usos necessários à vida, não terão outra função que não seja o louvor divino, porque já não haverá necessidade então, mas perfeita, certa, inalterável e eterna felicidade”. Santo Agostinho. v. 1: 634).     
     
A política amálgama da classe dirigente se faz de antagonismos que ela mesma entrelaça via a fusão do poder político com o poder cultural. Ao contrário da cidade-simulacro, temos uma cidade da felicidade platônica na terra platônica, finalmente:
“Eis, pois, terminado em perfeito tecido o estofo que a ação política urdiu quando, tomando os caracteres humanos de energia e moderação, a arte real congrega e une suas duas vidas pela concórdia e amizade, realizando, assim, o mais magnífico e excelente de todos os tecidos. Abrange, em cada cidade, todo o povo, escravos ou homens livres, estreita-os todos na sua trama e governa e dirige, assegurando à cidade, sem falta ou desfalecimento, toda a felicidade de que pode desfrutar”. (Platão: 269).

Assim, Platão conclui a sua gramática monista em narrativa dialética da forma de poder governamental que governa e dirige o todo (a polis) e as partes os sujeitos gramaticais homem real e homem político.

Trata-se da GRAMÁTICA DA TECEDURA NARRATIVA DA POLIS E DA POLÍTICA exposta no Político!

BARKER, Sir Ernest. Teoria política grega. Brasília: UNB, 1978
BAUDRILLARD, Jean. Simulacres et simulation. Paris, Galilèe, 1981
Bobbio, Norberto. A teoria das formas de governo. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980
EDMOND, Michel-Pierre. Le philosophe-roi. Platon et la politique. Paris: Payot, 1991
FREUD. Obras Completas. O Mal-Estar na Civilização. (1930 [1929]). RJ: Imago, 1974
HEIDEGGER, Martin. Metafísica de Aristóteles Ɵ 1-3. Sobre a essência e a realidade da força. Petrópolis: VOZES, 2007
INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. RJ: Jorge Zahar Editor, 1997
KELSEN, Hans. A democracia. SP: Martins Fontes: 1993
KELSEN, Hans. A ilusão da justiça. SP: Martins Fontes, 1995
McCARTHY, Thomas. La teoria de Jürgen Habermas. Madrid: Tecnos, 1992
MOSCA E BOUTHOUL, Gaetano e Gaston. História das doutrinas políticas. Desde a Antiguidade. RJ: Zahar Editores, 1975
PLATÃO. Diálogos. III. A República. Edições de Ouro. RJ: Editora Tecnoprint, sem data
PLATÃO. Político. Pensadores. SP: Abril Cultural, 1972
POPPER, Karl R. A sociedade democrática e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1959

SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. Parte I. Petrópolis: VOZES, 1989

sábado, 17 de junho de 2017

CRISE ATUAL DA AMÉRICA


                     CRISE ATUAL DA AMÉRICA - FRACTAL GRAMATICAL
José Paulo
                                                           

O problema maior da crise brasileira não é a relação altamente problemática e equívoca entre linguagem e realidade?
Todos as mídias culturais (instituições culturais dominantes, inclusive a UNIVERSIDADE) falam em políticos e política para designar os atores profissionais das instituições estatais representativas e política a atividade desses atores profissionais.
Então, e se o político não se puder definir (pela cultura da política universal ocidental) como o ator profissional das instituições representativas brasileiras públicas? E a política não se puder definir como a atividade desses atores brasileiros profissionais?
Pode-se concluir que a CRISE BRASILEIRA é exatamente a falta do político tout court e da atividade política como tal?
A falta da gramática em narração lógica do político e da política não é o principal problema da América Latina (Argentina, Venezuela, México...), problema que explica a GRANDE CRISE DO CONTINENTE AMERICANO?
Na américa, Donald Trump não significa um choque incontrolável (incontornável) com a gramática em narrativa transdialética lógica americana do "O Federalista", Pais fundadores da transdialética gramatical do político e da política dos Estados Unidos da América, que maravilharam Tocqueville e Hannah Arendt?                                                    

FRACTAL GRAMATICAL DA CRISE FREUDIANA DA PRODUÇÃO DO CONTEMPORÂNEO
Freud metabolizou a violência física sem limite da I Guerra Mundial como a primeira explosão do espaço psicótico OCIDENTAL.
A resposta da Europa foi o discurso da sociedade da felicidade. Para Freud, a sociedade da felicidade virtual ocidental se atualizaria como sociedade narcótica. Tal acontecimento eclodiu no pós II Guerra na América en masse. Freud não viveu para ver sua profecia racional virtual atualizada na América e depois no planeta no século XXI, com 180.000.000 de pessoas usando algum tipo de droga diariamente.   
Fez uma teoria política gramatical de que a produção do contemporâneo seria governado por explosões psicóticas ciclópicas, daí por diante e pela busca sem freios da sociedade da felicidade.  Então, considerou que tinha acertado 100% com a explosão do espaço psicótico da II Guerra.
20% de depressivos na população mundial é a BOMBA SUJA (Ferreira Gullar) de explosão do espaço PSICÓTICO freudiano na atualidade atual do século XXI? Uma parte dessa sociedade mundial do psicótico faz pendant com a sociedade dos drogados mundial.    

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DO CONTO A CARTOMANTE, de MACHADO DE ASSIS


José Paulo

GRAMÁTICA DIALÉTICA DA TECEDURA NARRATIVA FICCIONAL

De formação jesuítica, um historiador de uma universidade do interior de São Paulo apresenta um programa de formato inédito na TV. Sem um fio de cabelo na testa, ele diz ao espectador coisas que ele costuma dizer em sala de aula de um modo mais simples, talvez, simplificado.

Hoje, quinta-feira, no meio de junho, ele narrou no tempo eletrônico sobre alguém no Brasil que de tanto acertar o ritmo e os efeitos imediatos dos fatos políticos, havia se tornado a personagem machadiano A CARTOMANTE. Já gramaticalizei alguns textos de Machado de Assis, mas a referência ao conto A Cartomante me trouxe saudades e um desejo verdadeiro machadianos de gramaticalizar o conto contado, com sérios desvios da narrativa original, pelo nosso jesuíta historiador eletrônico do sul do país.

A Cartomante é uma narrativa (que o leitor deve buscar e sonhar com ela) de uma psicanálise gramatical machadiano? O narrador conta uma história trágico-cômica, um drama moderno, como nos ensinam nossos competentes e brilhantes professores de literatura e formas da estética. O conto é uma comédia de almour (amor + alma) envolvendo três personagens: Vilela, Camilo e Rita.
Camilo e Vilela são possuídos por um almour (que nossos psicanalistas vulgares freudianos chamam de amor homossexual):
“- É o senhor? exclamou Rita, entendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava-lhe sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa”. (Machado: 478-479).

O freudiano diz que a amizade homossexual levou Vilela a cavar no real de Camilo o desejo sexual à distância por sua própria mulher, mulher sagrada de Vilela. Desejar a mulher de Vilela significava para este, indiretamente, ter o desejo sexual de Camilo para si, sem nenhum custo ou perigo real ou imaginário.

Todo fenômeno psicótico tem por causa um acontecimento traumático. E eis que morre a mãe de Camilo. E o choque leva à tristeza e ao luto do filho que precisa de cuidados dos amigos. Então, Vilela deixa a Rita (como é mulher conhece melhor estes sortilégios e plasmas universais ou o remédio universal (panaceia psicanalítica) de curar a dor da perda da MÃE do amigo do marido.

Então, urge mostrar, ao leitor, o texto machadiano:
“Como daí chegaram ao amor, não o soube, ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente uma mulher bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-los em si próprio”. (Idem: 579).

A mistura fatal sexual psicótica é o quase incesto com a bela dona. Tal fato nos remete para o amor cortês das preliminares conjugal do inferno psicótico:
“Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; - ela mal, - ele para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muitas vezes os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com o vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeastes com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam”. (Machado: 479).       

Os sujeitos da psicanálise machadiano são a Cartomante e o Anônimo. Os dois tem a ver com cartas jogadas sobre a mesa para adivinhação ou cartas anônimas enviadas misteriosamente do remetente para o receptor para dar o mal a este último como acontece a quem tem um inimigo pessoal fazendo justiça sofística: fazer o bem ao amigo, e o mal ao inimigo! Aqui a justiça sofística voa, de mão em mão, através do discurso pedestre epistolar. A justiça sofística é um sujeito gramatical do inconsciente do discurso do inimigo anônimo epistolar:
“Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava de imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e para desviar suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela (...) As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente”. (Machado: 479).

A carta sofística traz a tragédia para a comédia de amor sexual romântico triangular. Mas antes de chegar ao fim da profecia da narrativa, pois, o leitor já sabe o que vai acontecer pelo narrador do conto que dá as cartas, vejamos a psicanálise gramatical machadiana.

A imaginação da personagem Camilo (e da Rita) tem uma função determinante na narrativa. A imaginação shakespeariana de Rita leva Camilo a cartomante.  

Narrador: “Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”. Narrador: “ Foi então que ela (Rita), sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo”. (Machado: 478).  

O narrador ainda põe na boca de Camilo diante do drama trágico moderno: “A voz da mãe repetia-lhe uma porção de caos extraordinários; e a mesma frase do príncipe da Dinamarca reboava-lhe dentro: ‘Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia...’ ”. (Machado: 481).

Há esse tronco comum gramatical da psicanálise freudiana com a psicanálise machadiana: a dramaturgia shakespeariana. Só que em Freud trata-se do Shakespeare da cultura do sério e da cultura witz. E em Machado? Trata-se da paródia do grotesco shakespeariano. Afinal, o drama Hamlet tem muito do grotesco barroco.

Contando shakespearianamente para Camilo a ida a Cartomante, Rita trás do fundo latente do inconsciente do discurso da Mãe de Camilo para o enfant Camilo toda a narrativa lendária da cidade carioca. Não se trata de uma qualquer, trata-se da capital do império, da polis e do lugar onde habita a política. Assim, a psicanálise machadiana faz pendant com a subjetividade da Mãe, com a polis e a política no sentido de Platão. Nos aproximamos verdadeiramente da ideia de Platão de uma gramática dialética da tecedura da polis e da política. (Platão: 241-242).

Na polis, na política e no conto machadiano o que conta é a narrativa como tecido de todos os três e de tudo o que acontece da subjetividade territorial virtual e real do território cidade-Estado. A narrativa machadiana é a gramática dialética da tecedura da polis carioca e do Império carioca shakespeariano.

Na subjetividade do conto machadiana tem a imaginação, o imaginário em interseção com o real alucinatório do trotar do cavalo (Machado: 481) e ainda outros fenômenos alucinatórios que definem o REAL machadiano. Tem o SIMBÓLICO do discurso epistolar e do jogar de cartas da Cartomante e muito mais, pois, várias espécies de ilusões reais, como o anônimo, e ilusões imaginárias (Idem: 480) povoam a narrativa da gramática dialética psicanalítica machadiana.   

O final já esperado pelo leitor é mesmo o fim esperado de Camilo e ENCORE. Depois de se dirigir por um acaso (armado pelo narrador) à cartomante, esta altera a atmosfera subjetiva de medo e suspeita de tragédia, em Camilo, que o bilhete que recebera de Vilela lhe impregnara na alma:
“ – As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita...Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta”. (Machado: 482). Esta gaveta corresponde ao vasilhame onde se guardam as torsões (maquinação do entrelaçamento da pessoa-cliente com o senhor absoluto hegeliano) da urdidura na trama do tecido narrativo. A gaveta é o sujeito gramatical violência gramatical simbólica sem limite como metáfora do tumba de Camilo no cemitério do grotesco gramatical da cartomante.    

A modernidade de Camilo se diluiu na atmosfera da velha, feia e suja, e inconfiável tradicionalíssima cultura da casa da cartomante:
- A senhora restitui-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão para cima da mesa e apertando a da cartomante”. (Idem: 482).

Agora a cartomante com um riso grotesco de quem envia inocentemente, inconscientemente, o cliente para seu destino funesto:
“Esta levantou-se, rindo:
- Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... (Idem: 482).

A cartomante tem o poder de mover (remover) o RECALQUE em Camilo sobre as velhas lendas cariocas da Mãe e sobre a retomada no cotidiano de seu desejo sexual por Rita, na página 483:
“ - Vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado (ria de si mesmo: é um fenômeno estético do grotesco); mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação:
“ – Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz”, e produziam o efeito de realidade de que o discurso da polis da cartomante era a única verdade.
E mais ainda:
“A verdade é que o coração ia alegre e impaciente (para aquele funcionário público Camilo, o moderno), pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória (eis a cidade real), Camilo olhou para ao mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável”.

E então narra-se o fim trágico antecipado na breve narrativa (anteriormente Machado diz: "mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos"):
  “ – Desculpa, não pude vir mais cedo; o que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e forma para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão”. (Idem: 483).

Claro que a narrativa continua na polis, pois, aí o poder policial e o judicial, também, entram em cena. E o leitor não saberá qual o destino de Vilela, pois, nada sabe sobre o modo como se comporta o Estado monárquico na sua capital carioca em pleno 1869.  

MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. v. 2. RJ: Nova Aguilar, 1979
PLATÃO. Político. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1972          
               

   
  

     

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A CRISE DA CULTURA DA POLÍTICA - PLATÃO, LACAN, GRAMSCI


José Paulo

                                                                TEORIA  DA GRAMÁTICA POLÍTICA

No capítulo O Mundo Abandonado, Platão organiza uma teoria da política mitológica que servirá à teoria política do Rei. Gramaticalizar este capítulo pode ser muito útil para a teoria do poder real das ciências gramaticais da política?

Deus é a divindade superior que governa o mundo. Ele é o significante gramatical mestre (Sg1). O Sg1 governa o todo, pois, os deuses locais (significantes gramaticais locais Sg2, Sg3 etc.) governam as partes do mundo da política. Deus governa o mundo no início, antes do mundo começar a governar a si próprio com a memória de que a cultura está no comando da política.

A cultura no comando da política é a cultura da política econômica articulada em um bloco histórico cultural. Trata-se da articulação da hegemonia como direção moral e intelectual sobre povo, nação e a sociedade civil no mundo-da-vida. O Sg1 governa a cultura como totalidade e os significantes gramaticais (Sg2, Sg3 etc.) governam as partes da cultura articulados em blocos culturais locais. A territorialização e atualização da cultura do todo nacional virtual em blocos locais culturais se movem pelo princípio da semelhança e da ordem entre eles na forma política, sendo resguardado as diferenças locais culturais.   

Com o desenvolvimento da história nacional fazendo pendant com a história mundial no ciberespaço, o bloco histórico cultural nacional perde efeito de realidade e, por consequência, os blocos culturais locais esquecem o sentido do governo do mundo nacionalmente. Tal fenômeno ocorre em uma época na qual o Sg1 deixou ao mundo político o governo de si próprio. Daí vem o esquecimento do que seja articulação moral e intelectual do mundo da política e seu efeito significativo. CORRUPÇÃO do espaço da política por   falta da memória gramatical da cultura no comando da política. Corrupção em um sentido grego, ou seja, corrosão da forma política. Assim, a política como serpente (astúcia, violência simbólica sem limite, sgrammaticatura) deixa de ser governada pela pomba socrática e seu desejo amoroso de justiça: política da politeia = não prejudicar.

O desejo sexual de justiça da serpente é dar o bem ao amigo (amante) e o dar o mal ao inimigo. Tal gramática em narração lógica do mundo que governa a si próprio equivale ao governo oligárquico no qual os significantes gramaticais locais se feudalizam culturalmente e deixam de se inscrever no todo (Sg1):
“Por esse motivo, o Deus que o organizou (o mundo) compreendendo o perigo em que o mundo se encontra, e temendo que tudo se dissolva na tempestade e desapareça no caos infinito da dessemelhança, toma de novo o leme e recompondo as partes que, neste ciclo, percorrido sem guia, tombaram em dissolução e desordem, ele o ordena e restaura de maneira a torná-lo imortal e imperecível”. (Platão: 227).

A dessemelhança das partes é a falta de gramática em narrativa teológica da articulação da hegemonia local. A narrativa da hegemonia é criada em Sg1 nacional fazendo pendant com a narrativa do mundo planetário e com as narrativas locais. Se o mundo da política governa a si próprio sem direção intelectual e moral, há a possibilidade de partes atualizarem textos virtuais dessemelhantes que trazem a desordem (e a corrupção no sentido da teoria política grega da antiguidade) na articulação dos blocos culturais locais. Aí, então, a política tout court se torna o governar o mundo como um dos impossíveis freudianos ao lado do ensinar e do psicanalisar (Freud:282).
Partindo da ideia de um bloco histórico cultural do bolivariano de FHC/Lula/Hugo Chaves que se constituiu na América Latina, onde blocos culturais locais governavam países (incluindo o Uruguai, Bolívia, Equador), o Sg1 é o bolivariano, ou melhor, o espaço da cultural da política do econômico latino-americano.

Com a morte de Hugo Chaves, o bloco local venezuelano perdeu um pedaço do todo, ou melhor, Sg1 bolivariano começou a se autodissolver com a desintegração do bloco cultural local-universal venezuelano. A partir de então, o bolivariano cai no caos infinito da dessemelhança que passou a pesar como chumbo no cérebro de Dilma Rousseff. Foi neste momento da corporalização da dessemelhança (e da consequente desordem de articulação da hegemonia continental) entre os blocos locais de países do Sg1bolivarino que o mundo político do bolivariano começou a se governar esquecendo a cultura no comando da política.

 Deixo ao autor anônimo coletivo Wikipédia o relato sobre a articulação da hegemonia do bolivariano personificada em Hugo Chaves:
“Chávez foi vítima de uma tentativa golpe de Estado em 2002, com apoio do governo dos Estados Unidos. Apesar de o governo norte-americano ter usado de sua influência para obter o reconhecimento imediato do novo governo, a comunidade internacional – inclusive o Brasil, então governado por Fernando Henrique Cardoso – condenou o golpe. Chávez acabou voltando ao poder três dias depois. No final do mesmo ano, mediante um referendo revocatório, a população foi chamada a opinar sobre sua permanência na presidência. Chávez venceu o referendo sem dificuldade, ampliando assim a sua base política de apoio.

Inconformados, os líderes da oposição boicotaram as eleições parlamentares, no sentido de deslegitimar os eleitos e, assim, os futuros atos do Poder Legislativo. Essa manobra não teve o resultado esperado e acabou por dar a Chávez uma tranquila maioria no parlamento. Apesar de se ter afastado da vida parlamentar por decisão própria, a oposição passou, então, a acusar Chávez de monopolizar o poder - já que tinha de fato a maioria na Assembleia Nacional - e de nomear aliados para o Supremo Tribunal de Justiça. Além disso, a oposição também criticava o controle do Banco Central e da indústria petrolífera do país pela Presidência da República. Outros inimigos acusavam Chávez de perseguir adversários políticos e de pretender instaurar uma ditadura do proletariado na Venezuela. Realmente, Chaves se declarava abertamente marxista, inclusive como seguidor de Rosa Luxemburgo.

Já no plano externo, Chávez notabilizou-se por adotar um discurso anti-imperialista, antiamericano e anticapitalista. Apoiou a autossuficiência econômica, defendeu a integração latino-americana, a cooperação entre as nações pobres do mundo e protagonizou a criação da UNASUL, da ALBA, do Banco do Sul e da rede de televisão TeleSUR, além de dar apoio financeiro e logístico a países aliados.

Segundo o governo Bush, Chávez era uma ameaça à estabilidade da América Latina. Observadores internacionais, como Jimmy Carter e a ONG Human Rights Watch, criticaram o autoritarismo do presidente venezuelano, embora Carter tenha ponderado que Chávez trouxe uma transformação necessária ao permitir que parcelas excluídas da população tivessem participação mais equitativa da riqueza nacional. O venezuelano também foi criticado por adotar, após o malogrado golpe de 2002, "políticas que minaram os direitos humanos" no país.

Apesar de ser muito criticado pelos grandes veículos de imprensa da Venezuela e do exterior, e de adotar uma postura desafiante em relação aos Estados Unidos, muitas nações e povos simpatizaram com sua ideologia gramatical marxo-bolivariano, com as políticas sociais do seu governo e com sua política externa, voltada à integração latino-americana e às relações sul-sul, mediante incremento de trocas bilaterais e acordos de ajuda mútua”.

Neste trecho em tela é indubitável que Hugo Chaves era o líder da articulação da hegemonia marxista do bolivariano no concerto das nações. Próximo de Hugo, Lula aparecia como segundo no comando do bloco histórico cultural do bolivariano.

Dilma Rousseff se sentia segura como líder do bloco local cultural brasileiro. Sua ideologia gramatical manifestamente nacional desenvolvimentista (virtualmente inscrita no livro de Guido Mantega) durante seu primeiro governo, virou em uma rotação em sentido contrário (ao de sua ideologia latente nacional desenvolvimentista socialista de Estado) em seu segundo governo. Tal fato se deve ao mundo político bolivariano ter passado a se governar esquecendo a cultura marxo-latino do bolivariano no comando da política bolivariana. O câncer de Hugo significou a instalação da dessemelhança (e desordem) nos blocos locais levando Dilma para a seara da ideologia gramatical neoliberal regressiva tardia.

O fim do Sg1 bolivariano abriu a janela para os ataques ao governo local de Dilma Rousseff. Ela acabou caindo do governo, mas se manteve como biografia viva da memória do bolivariano, como esperança para os restos fragmentados do bolivariano na América Latina. Também introduziu o caos infinito da dessemelhança entre as nações das Américas, Donald Trump no comando do poder americano aos pedaços.

Donald ampliou e intensificou o caos infinito da dessemelhança e desordem locais, por países, nas Américas. A américa não é mais o Sg1 tradicional do continente americano como um mundo governado pelo capitalismo. O Sg1 comunismo do bolivariano esfarelou-se no ar em mil pequenos fragmentos de uma ideologia gramatical em fuga do real do continente americano e de uma ponta da Europa: Espanha.

Sei que este modo de entender/explicar a crise latino-americana fazendo pendant com a crise da América é propriamente amoderna e surpreendentemente antiacadêmica. Ela é extramuros universitária. Sei que é incomum articular Lacan e Gramsci quanto mais ambos com Platão. Sei que tal modo operandi teórico/prático me deixa do lado de fora dos muros da fortaleza da cultura brasileira na universidade, nas grandes mídias (papel, eletrônica, digital).
O que fazer se minha alma (almour) me conduz por esses caminhos inusitados da cultura ocidental e das Américas?

FREUD. Obras Completas. Análise terminável e interminável (1937). RJ: Imago, 282
MANTEGA, Guido. A economia política brasileira. SP/RJ: Polis/Vozes, 1984
PLATÃO. Político. Pensadores. SP: Abril Cultural, 1972

       



               

terça-feira, 13 de junho de 2017

GRAMATICALIZAÇÃO DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE 1988


José Paulo

GRAMÁTICA CONSTITUINTE 1988



A Assembleia Nacional Constituinte é um fenômeno real de 1987 cujo efeito é um fenômeno possível fazendo pendant com um outro virtual: a Carta Magna de uma nação, de um povo nacional - A GRAMÁTICA CONSTITUINTE 1988. 
O fenômeno é real, pois, habitado e constituído por homens reais e políticos. Nem todo constituinte é um político profissional; ele pode ser advogado, juiz, professor, arquiteto, médico e até artista em geral.

O homem real não é o homo clausus em sua singularidade; ele é o efeito biográfico individual (no mundo-da-vida fazendo pendant com a biografia política) de significantes gramaticais múltiplos de sentido como a tradição das formas políticas vividas intencionalmente por ele; efeito de lendas das várias culturas políticas que não cessam e insistem em narrar seus mitos políticos; efeito de ideologias gramaticais e de narrativas sgrammaticatura, de narrativas sem sujeito ou sem advérbio, ou provérbios...; o homem real é o efeito da razão ou da desrazão, do sensato ou do insensato, do temperante ou do intemperante.

Na biografia política, o homem real persiste como ator gramatical das culturas políticas tout court como ator hobbesiano, hegeliano, marxista, freudiano, lacaniano ou como ator selvagem (Platão) que faz tudo para ficar fora do rebanho constitucional que quer buscar a unidade do povo textual virtual na Carta Constitucional. Este fenômeno foi o agir do PT e de Lula que não assinaram em público a Constituição 1988: niilismo constitucional simulado!  

Uma característica da ciência real do rebanho humano (significante povo moderno) é não estabelecer sua unidade gramatical teórico-prática virtual como um processo de rotação [sujeito à positividade do processo de resiliência] a ser autodissolvido por fenômeno de biografias políticas grupal (ou individual) que se opõem em agonia virtual ou possível, agonicamente ou abusivamente, como na dialética negativa em moda na atualidade.

Os atores hobbesiano, hegeliano e lacaniano majoritários do Congresso brasileiro se tornaram atores de culturas políticas econômicas selvagens agônicas, pois, seu agir é uma prática selvagem de subtração dos direitos constitucionais econômicos e sociais (destruição dos direitos constitucionais do povo e da nação) em prol da forma de poder de uma espécie de múltiplas culturas políticas capitalismo selvagem, saído da pura imaginação deles inspirado no Sertão de Rosa ou de Euclides.

A Assembleia Nacional Constituinte 1988 tem como consequência múltiplos discursos gramaticais lacanianos em extensão onde constam desejos que se sintetizam ou analiticamente se conformam virtualmente, e possibilidades de aversão sexual ou desejos sexuais que é o poder de se realizar como propriamente delírios dos mansos ou dos homens reais selvagens, aquáticos ou terrestre, pedestres, a cada um de acordo com a natureza corpórea (Platão: 223) dos que andam ou voam. Ou de criaturas orbitais do ciberespaço a partir da década de 1990 do globalismo como cultura da política da economia planetária e das ideologias gramaticais eletrônicas virtuais ou do hipertexto ciberespacial.

A Assembleia Nacional Constituinte 1988 é o efeito R. S. I. (Real/Simbólico/Imaginário) dessa simultaneidade de fenômenos reais, virtuais atualizáveis ou de atualizações desatualizáveis, de possíveis em realização ou irrealizáveis, fenômenos semelhantes para dezenas de milhões que se tornou um fenômeno dessemelhante para milhões com a evolução demográfica fazendo pendant como o globalismo em narrativa neoliberal tardia. Há de fato um abismo abissal entre a Carta que instituiu um Estado de direitos de massas para milhões de criaturas humanas e a Carta que não contempla os direitos econômicos de dezenas de milhões, do lado de fora da atualização normativa constitucional.

Este último fenômeno, trata-se de um conjunto do homem real como efeito da técnica industrialis ciberespaço. Um problema que a divisão do trabalho industrialis orbital da técnica industrialis ciberespaço põe e repõe, cria e recria; eis o fim da BIOGRAFIA INDIVIDUAL ECONÔMICA pedestre, sem serem os filhos da Terra. Aqui, a biografia econômica se assemelha a uma multiplicidade de fluxos simultâneos ASSÍNCRONO. Ou seja, de uma época de culturas políticas lendárias sem efeito de realidade: “Diz também que os homens, nesses tempos, nasciam da terra, e não uns dos outros”. (Platão: 222).

 A Assembleia Nacional Constituinte é o efeito (como condensação virtual determinada por uma multiplicidade textual) da gramática historial de uma nação e de um povo. A gramática constitucional é o efeito de uma multiplicidade de fenômenos reais, simbólicos e imaginários aprisionados em uma gramática teoria/prática em múltiplas narrativas de uma multiplicidade de lógicas! Por exemplo, será necessário investigar se a lógica gramatical topológica lacaniana lalangue constitui ou a roupagem, ou a plumagem, ou o corpo nu, a forma e/ou o conteúdo da nossa Carta Constitucional na teoria ou, assincronomente, na gramática da prática da política. Considerando o todo lacaniano de homens reais no nosso país, esta não é uma questão “retórica” ou menor.

O juiz Gilmar Mendes fala de um Estado policial (outros juízes de uma ditadura totalitária, entre nós) que pode ter sua força de realidade na sociedade disciplinar foucaultiana do homem real lacaniano paulista cuja ponta do iceberg (e sinthoma lacaniano) é o Hospital Psiquiátrico Lacan, situado em uma cidade do interior de São Paulo
                                                                    
                                                                     II

 A ANC contém várias espécies de modos virtuais e possíveis de mover racionalmente a política, incluindo o modo de movimentar rotação regressiva; o mover: ansilar, resiliência e outros. Voltar ao início é um modo de se mover do significante gramatical que é o objeto-produto-final do agir constituinte da ANC: Carta 1988.        

 A Carta não é um objeto virtual gramatical sujeito a dialética-moderna dos sujeitos gramaticais opostos e feita para ser objeto econômico dos antagonismos da sociedade de classes. O antagonismo econômico virtual atualizado, irracionalmente, é obra de grupos sociais, atores e homens reais selvagens que empregam o significante poder de mover a Carta, irracionalmente, (realização de desejo sexual irracional político) de Aristóteles. O poder associado:
“On peut soupçonner HÉSIODE d’avoir, le premier, recherché une solution semblable, et, avec lui, tout ceux, quels qu’ils soient, qui ont posé l’Amour ou le Désir pour principe dans les êtres, comme PARMÉNIDE l’a fait, lui aussi. Ce denier, construisant la genèse de l’Universe”.
˂Aphrodite> a créé l’Amour, dit-il, le premier de tout les dieux. (Aristote. Tome 1: 36).

Se o desejo amoroso é o princípio do mundo, ele é o princípio do poder como ser, então: “que certains êtres peuvent mouvoir rationnellement et que leurs puissances sont rationnelles, tandis que d’autres êtres sont irrracionnelles et leur puissances irratioannelles”. (Aristote. Tome 2: 496).

Porque que certas matérias constitucionais exigem maiores garantias que rodeiam o exercício da atividade constituinte? Quando as especiais formalidades se encontram consagradas, é claro que o agir legislativo prosaico não pode modificar as leis constitucionais que garantem os direitos individuais e se tratando de um Estado social de massas, não pode mover para fora da Carta os direitos sociais das massas tão facilmente e de um modo tão corriqueiro. Nesse caso, o juiz do STF é gramaticalmente em narrativa lógica investido em uma função fiscalizadora, se ele não se acovardar diante do poder selvagem irracional.   

Por exemplo, se uma lei aprovada ordinariamente tem um conteúdo contrário à Carta, o juiz pode e deve recusar a realização desse ato possível de ser perpetrado selvagemente, fruto de um desejo amoroso irracionalmente jurídico-político. Tal fato acontece, com efeito, na América.

Mas em outros ordenamentos jurídicos existe uma só forma para a manifestação da vontade legislativa. Esta acaba por ser o ersatz de gramática da Carta magna. Há, nesse caso, a spaltung da gramática em narração lógica do poder racional de mover a virtualidade da Carta ao atualizá-la. A maioria legislativa no Brasil de hoje se constituiu como um grupelho, um clã majoritário com vontade de poder selvagem de mover irracionalmente as possibilidades da Constituição realizando-a segundo os antagonismos econômicos (e sociais) criados artificialmente na imaginação de uma cultura política irracional clânica do sertão (Rosa e/ou Euclides da Cunha) do modo de produção da cultura da economia do burguês coronel urbano-rural.

Isto é tão verdadeiro que o MERCADO FASCISTA FINANCEIRO MUNDIAL não consegue entender (Hegel diz que o entendimento define o campo de poder mundial que nesse caso é o campo de poder mundial econômico hobbesiano) porque os coronéis legislativos brasileiros se tornaram stalinistas, ou melhor, neoliberais selvagens. Os nossos coronéis são economicistas stalinistas que fundem a política com a economia, o espaço político com o espaço econômico ao pôr a imaginação sertaneja da economia no comando da política. Nesse empreendimento, os coronéis têm o auxílio de economistas profissionais tout court stalinistas que não param de não inscrever o poder racional virtual da Carta como real atualizado irracional.

A América evita a quebra do caminho da resiliência constitucional, enquanto o Brasil do CORONEL SERTANEJO queima todas as caravelas na legislatura de 2017. Há um terceiro caminho para a rotação regressiva ao início dos fundamentos da gramática teoria/prática da nossa Carta?

Não há, obviamente, caminhos simultâneos para a (re) virtualização como resiliência e/ou rotação regressiva. Deve-se pegar um caminho de cada vez para a revirtualização do TEXTO ORIGINAL 1988. Um caminho seria o dos movimentos de massas tornar normativo o que resta dos direitos do Estado social de direitos. A ideia básica é afirmar e reafirmar que o trabalhador e o pobre da Carta têm direito à direitos constitucionais sociais e individuais. Que ele não poder ser transformados (por uma vontade de poder irracional de uma legislatura selvagem do senhor do sertão) em uma peça de carne da era da Precarious social grammar class constitucional. Em uma era às avessas da Era dos Direitos:
“O problema, bem entendido, não nasceu hoje. Pelos menos desde o início da era moderna, através da difusão das doutrinas jusnaturalistas, primeiro, e das Declarações  dos Direitos do homem, incluídas nas Constituições dos Estados liberais, depois, o problema acompanha o nascimento, o desenvolvimento, a afirmação, numa parte cada vez mais ampla do mundo, do Estado de direito (e do Estado de direitos sociais das massas gramaticalizadas constitucionalmente). Mas é também verdade que somente depois da Segunda Guerra Mundial é que esse problema passou da esfera nacional para a internacional, envolvendo – pela primeira vez na história – todos os povos”. (Bobbio: 49).

O ano de 1988 já é parte do golpe de força gramatical das culturas políticas do ciberespaço sobre as culturas políticas do homem da terra, pedestre que anda ou consegue fazer voos curtos na atmosfera da tela gramatical em narrativa lógica da política. A Carta 1988 já nasce como uma espécie de hipertexto gravado em papel que, depois, permaneceu ao acesso dos navegantes do ciberespaço.

A essencial da Carta é ela ser capaz de invadir o real da sociedade normativamente como aconteceu com o significante (nomeado por um cientista político carioca) de presidencialismo de coalizão entre o governo de plantão e a vontade da maioria do Congresso eventual. O sentido principal de tal significante em tela é que se o presidente está dissociado da vontade da maioria, ele é derrubado por ela. Este acontecimento eclodiu no primeiro governo eleito pelo voto da soberania popular.

Fernando Collor ignorava esta atualização possível do texto virtual da Carta. Ele fez pouco caso do virtual coercitivo já se apresentando no Parágrafo único do Artigo 78 e do Artigo 83. Collor sempre acreditou que a gramática praticada pela onda legislativa poderia driblar a sanção de qualquer artigo punitivo em relação ao primeiro presidente eleito após os anos de trevas constitucionais e legislativa do Estado militar fascista 1968.

Ele e seus auxiliares jurídicos ignoraram que a Seção III – Da Responsabilidade do Presidente da República do Capítulo II. Do Poder Executivo não chegava a ser uma lei tout court moderna. A Seção III era virtualmente o texto da Carta que possibilitava a atualização, (re) atualização e ritualização do SIGNIFICANTE PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO com a maioria eventual do Congresso no comando da política que definia se e quando encerrar o mandato do presidente da República.

O SIGNIFICANTE supracitado vinha ao encontro de centenárias culturas políticas oligárquica e popular que viam no presidente uma espécie de monarca pombalino liberal d. Pedro I a ser deposto e expulso do Brasil por quaisquer meios, como acabou acontecendo na década de 1830. Trata-se de um fenômeno do inconsciente das múltiplas culturas políticas que desaguam nesse rio Amazonas da política nacional selvagem do Coronel urbano-rural da produção da contemporaneidade.

Aristote. La métaphysique. Tomo I. Paris: J. Vrin, 1986
Aristote. La métaphysique. Tomo II. Paris: J. Vrin, 1986
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. RJ: Campus, 1992
PLATÃO. Diálogos. Político. SP: Abril Cultural, 1972